Conheça o Banzo: espécie de depressão ligada às mazelas da escravidão, que levou muitas pessoas escravizadas ao suicídio

“Anda em mim, soturnamente,/ uma tristeza ociosa,/ sem objetivo, latente,/ vaga, indecisa, medrosa./ Como ave torva e sem rumo,/ ondula, vagueia, oscila/ e sobe em nuvens de fumo/ e na minh’alma se asila”.

Os versos acima, retirados do poema “Tristeza do infinito”, de Cruz e Sousa podem ser considerados como um exemplo do banzo, estado de depressão profunda que acometia muitos dos africanos escravizados que chegavam ao Brasil.

Tomados por uma dor dilacerante, marcada pela saudade da terra natal e pelas péssimas condições a que eram submetidos, muitos dos escravizados caiam em uma depressão capaz de levá-los a um suicídio passivo – através do qual recusavam alimentos ou comiam terra e se deixavam morrer de inanição e tristeza. Outros usavam os métodos tradicionais como enforcamento, afogamento e uso de armas brancas.

Esse sentimento de imensa nostalgia, melancolia e desejo de retornar à África paralisava esses africanos e era intensificado pelos maus tratos, castigos e privação da liberdade.

Os altos índices de suicídio entre os escravizados fizeram com que o tema se tornasse objeto de estudo de diversos estudiosos ainda na época da escravidão e, em muitas dessas análises, fica claro que o banzo era resultado de uma multiplicidade de fatores: a psicopatologia, as condições subumanas do tráfico e do navio negreiro, os serviços pesados, os maus tratos, as doenças e a saudade de casa e de uma vida que eles sabiam que jamais seria recuperada. Assim, a morte parecia ser a única saída possível para essa dor que se asilava na alma desses homens e mulheres privados de tudo aquilo que dispunham em sua terra natal e extremamente desumanizados e violentados no novo território.   

Há controvérsias em torno da origem da palavra. No entanto, vários estudos apontam que ela viria do quimbundo “mbanza”, palavra que significa “aldeia”, daí o termo ser associado à saudade do lar.

A geofagia, hábito de comer terra e barro, era frequentemente associada ao banzo. Em relatos de viajantes do século XVI já é possível encontrar referências a essa prática, segundo os quais os índios suicidas comiam barro até sua barriga inchar e eles morrerem. No século XIX, alguns relatos falam desse hábito entre os negros, como uma ação deliberada em direção à morte. Segundo Debret, a máscara de ferro colocada no rosto de diversos escravizados era uma forma de impedir que eles comessem terra e, consequentemente, morressem, já que a tristeza profunda que os tomava fazia com que nada os demovesse da ideia de dar fim à própria vida, nem mesmo os castigos físicos a que eram submetidos como tentativa dos seus senhores de não perderem o investimento que haviam feito ao terem seus cativos cometendo suicídio.

Para alguns pesquisadores, entretanto, não há como estabelecer claramente a relação entre a ingestão de terra e o desejo de morrer. Conforme a historiadora Mary Karasch, é mais provável que a geofagia fosse decorrente de uma desnutrição grave e que os escravizados comessem terra como forma de lidar com a dor da fome enquanto esperavam a morte.

Dominados por essa tristeza soturna, que os corroía por dentro, muitos escravizados viam a morte como a única possibilidade de livrar-se da dor que sentiam, buscando, desse modo, as mais variadas estratégias para se verem livres daquele sentimento extremo que os consumia.

Referências

https://revistapesquisa.fapesp.br/2010/06/26/a-saudade-que-mata/

http://www.scielo.br/pdf/rlpf/v10n2/1415-4714-rlpf-10-2-0346.pdf

http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S1415-47142008000500003

https://www.geledes.org.br/banzo-um-estado-de-espirito-negro/

https://seer.ufs.br/index.php/pontadelanca/article/view/10264/pdf

https://tede2.pucsp.br/bitstream/handle/19035/2/Mariana%20Pedrosa%20Marcassa.pdf

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