Khmer Vermelho: a história do genocídio praticado contra cerca de dois milhões de cambojanos

Ao longo da história, diversos foram os regimes marcados por muito sangue e violência contra a população civil. Alguns deles se tornaram mais conhecidos e são frequentemente lembrados, outros acabaram tendo uma menor projeção e são quase desconhecidos por grande parte das pessoas. Nessa segunda posição, temos o “Kampuchea Democrático”, nome dado ao regime que vigorou no Camboja entre 17 de abril de 1975 e 7 de janeiro de 1979.

Conhecido como Khmer Vermelho, nome informal dado ao Partido Comunista do Camboja, e liderado por Pol Pot, esse regime se baseava no nacionalismo, xenofobia, ideologia agrária e técnicas de guerrilha, deixando como saldo uma trilha de cerca de dois milhões de mortos, vítimas da matança generalizada, fome, excesso de trabalho e doenças que se alastravam rapidamente pelo território cambojano e entrando para a história como um dos piores genocídios de que se tem notícia.

Restos mortais de vítimas do Khmer Vermelho em memorial no Camboja. Foto: Doy Nivenafp

Esse período foi tão terrível que é lembrado pelos cambojanos como “o regime de três anos, oito meses e vinte dias”, como se cada momento desse trágico período tivesse ficado marcado para sempre na memória de quem o viveu e conseguiu a ele sobreviver.

Insistindo em uma utopia agrária e no extermínio de qualquer marca do capitalismo em solo cambojano, Pol Pot determinou o fechamento de escolas, a perseguição de professores e outros intelectuais e estabeleceu um processo de doutrinação e alienação que promovia uma reescrita da história e visava limpar qualquer traço de religiosidade ou de influência burguesa na sociedade do Camboja.

Guerrilheiros comunistas desfilam pela capital do Camboja, após a ocupação. Agência O Globo.

Houve um processo de extermínio em massa da população, como forma de garantir que a doutrina imposta pelo regime comunista fosse seguida cegamente. Professores e monges, antes responsáveis pela educação da população, foram perseguidos e mortos, o simples fato de usar óculos já incluía as pessoas na lista daqueles que sofreriam ataques do governo, pois os óculos eram tidos como marca de intelectualidade. Bibliotecas foram queimadas, escolas foram fechadas e todos aqueles que tinham um nível mais elevado de educação se tornaram alvos de um regime que considerava a cultura e o conhecimento uma forma de doutrinação ocidental e capitalista.

A partir dessa ideologia, o governo esvaziou cidades e obrigou as pessoas a viverem em fazendas coletivas, onde eram forçadas a trabalhar 16 horas por dia, tinham uma alimentação insuficiente, eram proibidas de praticarem qualquer religião, frequentarem escolas, bancos e hospitais. Junto a isso, o extermínio de quem era considerado opositor ao regime ocorria sistematicamente, os corpos eram jogados em valas comuns e o assassinato de famílias inteiras era uma prática rotineira.

Evacuação forçada pelo regime. Wikimedia Commons

 Ao longo dos três anos, oito meses e vinte dias do Khmer Vermelho, o que se viu no Camboja foi o extermínio de cerca de 25% de sua população e uma violência extrema, praticada contra qualquer um que fosse considerado inimigo do regime.

Apoiado pela China e pelos Estados Unidos, Pol Pot ficou durante anos preparando o seu exército para a luta armada e conquistando o apoio de camponeses. Quando assumiu o poder, os homens do campo achavam que finalmente teriam um governo que lhes traria melhores condições de vida, mas o que se viu foi a instauração de um governo ditatorial, que confiscou propriedade privadas, isolou o país do resto do mundo e obrigou as pessoas a viverem em fazendas coletivas e a passarem por um processo radical de doutrinação.

O ditador Pol Pot. Agência O Globo

Sob a alegação de que a capital seria alvo de um bombardeio dos Estados Unidos, os moradores da capital foram conduzidos para fazendas no interior. Todos os seus bens e pertences foram confiscados e até mesmo as suas identidades lhes foram roubadas. Nos campos, eles deveriam se tratar apenas como “camaradas”, vestiam-se da mesma forma, trabalhando em rotinas extremamente estafantes e deveriam plantar o que lhes serviria de alimento.

Qualquer um que tentasse violar as normas impostas era imediatamente executado. Para o Khmer Vermelho era preciso exterminar todo e qualquer inimigo sem hesitação, mesmo que isso custasse a vida de inocentes, era um mal necessário. Assim, a tortura era uma prática comum, crianças tinham suas cabeças lançadas contra árvores até que seus cérebros saltassem do crânio, os prisioneiros eram torturados com sacolas plásticas, choques elétricos e objetos quentes.

Restos mortais das vítimas do Khmer Vermelho

Ao longo do governo de Pot, a tensão entre o Camboja e Vietnã foi aumentando, deixando como saldo ainda mais vítimas. Exemplo disso, são os 3157 civis massacrados durante a invasão da cidade de Ba Chúc. Em 7 de janeiro de 1979, os vietnamitas aliados à Frente Unida para a Salvação Nacional do Kampuchea invadiram o Camboja e destituíram Pol Pot do poder. Desse modo, o Khmer Vermelho foi substituído pela República Popular do Kampuchea, mas a ONU seguiu reconhecendo a legitimidade do governo anterior. As tensões políticas na região continuaram fortes e o país se tornou uma monarquia constitucional não comunista, em 1993.

Guerrilheiros exibem a cabeça cortada de um inimigo. Agência O Globo

Em abril de 1998, Pol Pot morreu. Oficialmente, afirma-se que ele sofreu um ataque cardíaco, no entanto, há quem diga que ele tenha se suicidado com uma overdose de Valium e Cloroquina.

O Khmer Vermelho só chegou efetivamente ao fim em 1999, momento em que os últimos líderes abandonaram o Governo Real do Camboja. Entretanto, as punições pelas atrocidades cometidas no país só começaram a ocorrer a partir de 2005, quando foram criadas as Câmaras Extraordinárias nos Tribunais do Camboja para julgarem os crimes cometidos durante o regime.

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Referências:

CHANDLER, David. “A History of Cambodia”. Boulder: Westview Press, 2009.

HINTON, A. “Why did they kill? Cambodia in the shadow of genocide”. Berkeley: University of California Press, 2005

URS, Tara. “Vozes do Camboja: formas locais de responsabilização por atrocidades sistemáticas”. SUR: Revista Internacional de Direitos Humanos. n. 7, ano 4, 2007. https://www.scielo.br/pdf/sur/v4n7/a04v4n7.pdf

RAMOS, Paulo Roberto. “Bophana e a persistência da memória”. Estudos Avançados, n. 32 (93), 2018. https://www.scielo.br/pdf/ea/v32n93/0103-4014-ea-32-93-0359.pdf

https://acervo.oglobo.globo.com/fotogalerias/o-khmer-vermelho-10593288

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