A história da corrida do ouro em Serra Pelada

Acompanhe alguns detalhes dos 12 anos de extração do metal precioso, que foram cobertos por muito sangue, violência, suor e sonhos enterrados no barro

Em meio à Floresta Amazônica, na região conhecida como Carajás, no norte do país, foi encontrada uma montanha de ouro. Serra Pelada, como ficou conhecida, era um elevado coberto por floresta nas dependências da Fazenda Três Barras, no sudoeste do Pará.

Fotografia conhecida como formigueiro humano.

Em 1980, a primeira pepita foi encontrada e, após envio para averiguação, descobriu-se que o metal, extraído com poucas picaretadas no solo, fazia parte de uma enorme reserva de ouro de aluvião (tipo de metal fácil de extrair com escavações humanas). A notícia se espalhou como fogo na pólvora e, em menos de 15 dias, mais de 1000 pessoas já se encontravam na porta da fazenda visando explorar a montanha dourada.

Formigas sobem as escadas – Sebastião Salgado

Os primeiros buracos começam a ser abertos no final de 1980 e o fluxo de trabalhadores só aumentou. Nos três primeiros anos, vieram pessoas de todos os lugares do país, chegando, em meado dos anos 80, ao incrível número de 90 mil homens.

O Garimpo em pleno funcionamento

Era tanto ouro e tanta ambição que comunidades foram formadas ao redor da Serra Pelada, como, por exemplo, a atual cidade de Curionópolis. Naquele momento, conhecida como “Vila do 30”, era onde ficavam bares e bordéis e onde eram resolvidas as desavenças que se iniciavam no período de funcionamento da garimpagem. O local chegou a ser conhecido pelas seguintes frases: “De dia é 30, a noite é 38”, em alusão à quantidade de tiroteio e mortes ocorridos no local.

Imagem clássica, fotografada por Sebastião Salgado, serviu de escopo para muitos filmes,
que basearam certas cenas de batalha nessas imagens

Com o aumento exponencial da população e da violência, o Estado Brasileiro, na época, uma ditadura militar, passou a organizar o espaço, e até se tornou dono de vários pontos de garimpo. Os generais enviaram Sebastião Curió para a região, um homem rígido, que proibiu mulheres e álcool nos espaços reservados ao garimpo. Era ele também que resolvia as brigas, servindo de juiz, governante e carrasco em toda a região na qual circulava o ouro.

Um garimpeiro enfrente um soldado do exército.
O exército, sob o comando de Major Curió, era responsável por manter o garimpo em “ordem”.

Em Serra Pelada, a morte era uma constante, morria-se de praticamente tudo: malária, febre amarela, tiro, brigas de faca, picaretadas, mas o que realmente matou muita gente foram as escadas do grande abismo do garimpo. Geralmente, os trabalhadores que subiam com sacos de barro para a superfície, eram chamados de formigas. Estima-se que mais de 2000 formigas tenham morrido nos 12 anos de garimpo. Era tão comum esses tipos de óbitos, que as quedas tinham até um apelido: “Adeus Mamãe” ou “Fui Mamãe”. A princípio, as mortes causavam um grande impacto nos trabalhadores do garimpo, porém, com o passar do tempo, a comoção deixou de existir. Quando alguém caía, o corpo era retirado e todo mundo continuava trabalhando atrás do ouro.

Uma barra de ouro, feita de uma pepita de um dos barrancos

Os números de Serra Pelada impressionam: em 12 anos de garimpo, estima-se que foram extraídas 42 toneladas do metal dourado. Número, provavelmente, longe da realidade, pois o contrabando era atividade comum na região. Também passaram por lá, em uma década, mais de 150 mil pessoas. O fim do garimpo, em 1992, deixou uma cidade montada (atual Curionópolis) e um buraco de mais de 200 metros de profundidade no coração de Carajás.

Um formiga carrega sacos de barro para fora do barranco.
Esse tipo de trabalho poderia ser combinado por 1 a 2% do que fosse retirado dos barrancos, ou outros combinavam um salário mensal.
O formiga é considerado o trabalho mais extenuante de se exercer em um garimpo.

A exploração do garimpo de Serra Pelada é considerada uma das maiores intervenções do homem na natureza já registradas no Brasil e no mundo. Em pouco tempo, o homem e sua febre pelo ouro transformaram uma região onde a natureza reinava, em sonhos cobertos de barro e enterrados em um buraco tão profundo, que submergiu e enterrou o sonho de enriquecer de muita gente.

Uma foto da região do “30”. Conhecida por ficar a exatamente trinta quilômetros do garimpo. Esse local era onde a vida social dos garimpeiros de desenrolava.
Lá, era o espaço onde se podia fazer compras, e frequentar as famosas boates de prostituição. Geralmente onde a ostentação, uso de alcool, drogas e armas de fogo aconteciam causando sérios problemas de relacionamento entre os garimpeiros.

Quando alguém encontrava uma pepita de ouro, diziam que a pessoa havia bamburrado. Na maioria das vezes, os sortudos que conseguiam a proeza de encontrar grande quantidade do metal, não costumavam guardar o dinheiro, mas gastavam o que recebiam fretando aviões, alugando boates por vários dias, ou mandando substituir os dentes por ouro. Por isso, a maioria dos garimpeiros foi pobre para Serra Pelada e voltou de lá mais pobres ainda.

Trabalhadores

Um homem é capturado por outros garimpeiros, suspeito de levar mulher para o garimpo e furtar ouro.

Rita Cadillac era considerada a rainha de Serra Pelada.

Formiga no período de descanso.

Referências:

https://super.abril.com.br/…/como-foi-o-garimpo-em…/

https://www.todamateria.com.br/serra-pelada/

http://memoriaglobo.globo.com/…/serra-pelada-corrida-do…

https://www.vice.com/…/os-garimpeiros-da-serra-pelada…

https://www.youtube.com/watch?v=mSDh86t2nG0

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