Da favela para o mundo: a vida e obra de Carolina Maria de Jesus

            Publicado em 1960 pela editora Francisco Alves, “Quarto de despejo” foi o livro que permitiu que Carolina Maria de Jesus (1914-1977) realizasse o seu sonho de se tornar escritora e ter sua voz ouvida em diversos lugares do mundo. Mas até virar best-seller, vendendo 10 mil cópias em apenas três dias e quase 90 mil nos três meses seguintes, sendo traduzida para 14 línguas e comercializada em mais de 40 países, a trajetória de vida de Carolina foi marcada por muita miséria e luta pela sobrevivência.

            Nascida no dia 14 de março de 1914 na cidade mineira de Sacramento, Carolina Maria de Jesus era filha da doméstica Maria Carolina de Jesus e de João Cândido, com quem não conviveu. Seus avós maternos foram escravizados e sua família vivia de forma precária na área rural da cidade mineira.

            Tendo uma infância extremamente difícil, ela cresceu vendo sua mãe trabalhar muito para sustentar a ela e ao seu meio irmão Jerônimo. Por influência da dona Maria Leite, uma ex-patroa de sua mãe, ela foi matriculada no colégio Allan Kardec, onde estudou por dois anos e viu nascer sua paixão pela leitura e pela escrita. Como não dispunha de livros em casa e toda a sua família era analfabeta, Carolina pediu um livro emprestado a uma vizinha e voltou para casa com a “A escrava Isaura”, obra que marcou sua vida, seu interesse pela escravidão e a sua escrita.

            A partir daí, as grandes preciosidades de sua vida foram os livros que foi conseguindo, obras de Luís Gama, Henrique Dias e Castro Alves consumiam seus dias, fazendo com que deixasse de lado os serviços domésticos e fosse repreendida pela mãe e, posteriormente, pelas patroas nas casas onde trabalhou como doméstica.

            Na adolescência, mudou-se com sua mãe e seu padrasto para uma fazenda e, embora gostasse da vida no campo, o trabalho era muito pesado e as condições financeiras da família cada vez mais difíceis. Além disso, ela sofria com feridas nas pernas, sentindo muitas dores e enfrentando diversas dificuldades em busca de tratamento, chegando ao ponto de ir até Uberaba a pé com o objetivo de conseguir tratamento médico.

            Algum tempo depois, retorna a Sacramento, após viver em Ribeirão Preto, também em busca da cura de suas feridas, e acaba sendo presa junto com sua mãe, acusada de estar lendo o livro de São Cipriano, obra que diziam ser usada para fazer “feitiços” contra os brancos.

            Na prisão, ficaram sem comer por dois dias, foram obrigadas a capinar a frente da cadeia, foram espancadas, xingadas e sua mãe teve o braço quebrado. Após a ajuda de um primo, conseguiram ser libertadas e Carolina deixou definitivamente Sacramento.

            Passou um tempo no Rio de Janeiro e, sem seguida, fixou residência em São Paulo, passando por cortiços, construções abandonadas e hotéis baratos, até que passou a morar em um barraco que ela mesma construiu na favela do Canindé.

            Naquele barraco, Carolina criou sozinha seus três filhos – João José, José Carlos e Vera Eunice –, escreveu sua história em muitos e muitos cadernos recolhidos na rua e sonhou com o dia em que teria condições de colocar diariamente a comida na mesa de seus filhos, sairia da favela, chamada por ela de “quarto de despejo” da cidade, e veria seus escritos publicados e sua voz finalmente ouvida.

            Esse dia chegou quando o repórter Audálio Dantas foi fazer uma reportagem na favela e tomou contato com os cadernos escritos por Carolina Maria de Jesus. Algum tempo depois, seu livro seria publicado, ela conseguiria se mudar para uma casa de alvenaria na cidade e veria seu nome superar o de escritores já consagrados na lista dos mais vendidos.

            Após anos peregrinando por jornais e tentando publicar seus textos, finalmente Carolina viu seu sonho sendo realizado, mas, junto com esse sucesso, muitos oportunistas tentaram se aproveitar do dinheiro que ela começava a ganhar e abusar de sua boa-fé. Assim, Carolina colheu as glórias trazidas pelas vendas de “Quarto de despejo”, porém enfrentou também o preconceito racial e social e uma gama enorme de aproveitadores que tentaram lucrar a partir de seu nome.

            Depois de virar best-seller, viajar pelo Brasil e por outros países da América do Sul, conseguir a sonhada casa de alvenaria, Carolina foi vendo as vendas diminuírem, suas outras publicações serem praticamente ignoradas e seu dinheiro escoando com uma rapidez imensa.

            Com o passar do tempo, foi contraindo dívidas e amargando uma enorme desilusão por não obter o mesmo sucesso com as outras obras que conseguiu publicar, chegou a ser obrigada a voltar a catar papel para sustentar os filhos. Terminou sua vida pobre e doente em um sítio em Parelheiros, levando consigo a amargura de não ter conseguido se manter no caminho do sucesso com o qual tanto sonhara.

            Hoje, Carolina Maria de Jesus é lembrada como um dos grandes nomes de nossa literatura, parte de seus manuscritos está guardada no Acervo Carolina Maria de Jesus, em Sacramento. Na mesma cela onde ela e sua mãe foram presas e agredidas, é possível encontrar catalogada e cuidadosamente guardada a preciosidade de seus escritos, muitos deles ainda completamente inexplorados.

            Carolina Maria de Jesus é uma mulher que merece ser lembrada, não só por todas as batalhas que enfrentou ao longo da vida, como por ter desenvolvido uma consciência crítica aguçada e ter rompido uma série de barreiras até conseguir escrever seu nome em nossa literatura.

Referências:

FARIAS, Tom. “Carolina: uma biografia”. Rio de Janeiro: Editora Malê, 2018.

JESUS, Carolina Maria de. “Quarto de despejo: diário de uma favelada”. São Paulo: Editora Ática, 2014.

JESUS, Carolina Maria de. “Diário de Bitita”. São Paulo: Editora SESI-SP. 2014.

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