Quem foi Quino, pai da Mafalda

O homem que transformou desenhos em questionamentos políticos.
Cartunista Quino e a pequena Mafalda em uma praça de Buenos Aires

Figurinha carimbada nas provas de Língua Portuguesa, a personagem Mafalda é uma das mais populares criações do cartunista argentino Quino.

Criada em 1962, para uma campanha publicitária que não deu certo, Mafalda ganhou vida na revista “Primeira Plana”, em 1963, e, posteriormente, passou para as páginas dos jornais argentinos, nas quais esteve presente entre os anos de 1964 a 1973, espalhando uma fina ironia e um olhar crítico para as desigualdades que assolavam a sua época e que, infelizmente, permanecem tão atuais, que tornam suas tiras atemporais.

A garotinha de 6 anos, que detesta sopa e ama Beatles, é mais do que uma criança politizada, é uma personagem que tem total consciência do contexto social e político no qual está inserida, revelando uma visão de mundo de alguém capaz de analisar criticamente as injustiças, as guerras, a intolerância, o machismo, o consumismo, os programas de televisão, os métodos de alfabetização, a estrutura da escola.
É uma criança que questiona o universo dos adultos e os coloca de frente com aquilo que não funciona no contexto em que vivem.

Seu criador, Joaquín Salvador Lavado, nasceu em 1932, em Mendoza, na Argentina, e ganhou o apelido de Quino por causa de um tio que tinha o mesmo nome que ele e de quem herdou o talento artístico. Extremamente premiado e conhecido no mundo inteiro, principalmente por causa da Mafalda, cujos quadrinhos foram traduzidos para 30 idiomas, Quino tem uma produção bastante rica e deixou seu nome gravado na lista de grandes cartunistas do mundo.

Quando questionado sobre a contemporaneidade de sua famosa personagem mais de 50 anos depois de sua criação, ele diz que isso é um mal sinal, uma prova de que não evoluímos nada e de que o autoritarismo, as desigualdades e todos os problemas contra os quais a Mafalda se levantava, ainda permanecem, como se nada tivesse mudado desde a sua criação. Para ele, é triste pensar que aquilo que angustiava a personagem continue tão presente e que os seus protestos continuem fazendo sentido, justamente porque aquela estrutura social contra a qual ela se opunha permanece inalterada.

Embora tenha como contexto a Argentina dos anos 60 e 70, Mafalda se tornou uma personagem universal, pois os dilemas que ela enfrenta e as injustiças que ela combate ultrapassam fronteiras e não estão circunscritos apenas à época em que suas tiras foram produzidas.

Mesmo que Quino tenha colocado um fim na produção de novas tiras há muito tempo, o olhar crítico de Mafalda, sua consciência política, sua visão sagaz do mundo dos adultos fazem com que ela siga conquistando a admiração de novos leitores e tenha se tornado um clássico do mundo dos quadrinhos. Em um prefácio que escreveu para a edição europeia da Mafalda, Umberto Eco a definia como “uma heroína zangada que recusa o mundo como ele é, reivindicando seu direito de continuar a ser uma menina e que não quer assumir um universo corrompido pelos pais”. Suas reivindicações seguem fazendo sentido até hoje e as críticas presentes nas tiras da famosa personagem ainda dialogam diretamente com nossos dias, tornando sua leitura uma fonte de prazer e reflexão crítica que resiste ao tempo.

Nesse dia 30, Quino morreu aos 88 anos. Mas sua obra ficará para sempre iluminando corações e mentes.

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