O Trote da Morte: A história do afogamento de Edison Hsueh

O acontecimento reacendeu o debate sobre trotes violentos nas Universidades brasileiras

Foto 3×4

Edison Hsueh era filho mais novo de uma família de imigrantes vindos de Taiwan.
Tentando a vida no Brasil, a família Hsueh mantinha o sustento dos filhos através de uma papelaria, montada em um bairro pobre de São Paulo.

Edison tinha o sonho de ser médico. Muito estudioso, conseguiu passar no vestibular para o curso de Ciências Médicas na Faculdade mantida pela Santa Casa, uma das mais conceituadas do Brasil. Aprovado e com matrícula efetivada, Edison sabia que seus pais não poderiam mantê-lo estudando, pois a mensalidade era altíssima (atualmente próxima de 7 mil reais), por isso, continuou investindo nos estudos e, em 1999, foi aprovado no curso de Medicina da USP, o mais conceituado e concorrido do país na época. A grande vitória foi comemorada pela família, mas se desenrolaria num triste desfecho no fundo de uma piscina da Universidade.

Edison com jaleco mostrando aos pais o fruto de um sonho

No dia 22 de fevereiro de 1999, após a efetivação de sua matrícula, Edison participou do tradicional e violento trote da medicina da USP, conhecido pelos abusos que veteranos cometiam contra calouros.
Os “bixos” foram amarrados com barbantes, mergulhados em farinha, ovos e tintas, e sob xingamentos, humilhações constrangimentos e agressões desferidas pelos veteranos, se locomoveram até a piscina da Atlética do curso. Lá, na frente da piscina olímpica, ao som ensurdecedor da bateria universitária, coagidos por gritos dos veteranos, os calouros pularam naquela imensidão de água. No dia 23 , pela manhã, um funcionário encontrou o corpo do jovem calouro dentro da piscina, Edison morreu de asfixia mecânica por afogamento.

Crachá de Edison da Faculdade de Medicina da Santa Casa, onde cursava antes da USP

Após esse acontecimento, as autoridades não sabem ao certo o que ocorreu, não chegaram a uma conclusão de como teria sido a morte de Hsueh, o fato é que o garoto não sabia nadar, talvez tivesse sido empurrado, talvez castigado por não concordar com o trote. A polícia civil, após abrir inquérito, ouviu mais de 60 estudantes. A USP também abriu sindicância e ouviu algumas dezenas de alunos. Uma testemunha que teria visto veteranos comentando sobre Edison, foi demitida misteriosamente pela Universidade. O corporativismo entre os alunos impediu que alguma informação mais relevante chegasse aos ouvidos das autoridades que investigavam os fatos. E até o momento, 20 anos após a tragédia, ninguém foi punido.

Foto e óculos de Edison na mesa da delegacia de Homicídios

O terrível acontecimento reacendeu o debate sobre trotes em universidades em todo o Brasil. As principais Universidades de São Paulo e do Brasil proibiram as práticas no interior e nos arredores das instituições. O governo passou a investir cada vez mais na conscientização sobre as consequências maléficas dos trotes violentos.

Já a família de Hsueh, que procura por justiça até hoje, foi afetada não apenas pela morte do filho, mas também teve que enfrentar o óbito do patriarca da família, Ming Feng Hsueh. Em uma reportagem da revista Istoe, a mãe de Edison descreveu a morte do marido:

Pai de Edison no enterro do filho

“Ele já não comia. Ficou magro e doente. E morreu de depressão. Tudo por causa do meu filho que já foi”.

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