O Caso Tim Lopes: o crime que mudou o jornalismo brasileiro

Polícia Civil do Rio de Janeiro expõe Elias Maluco, o assassino do repórter da Rede Globo Tim Lopes. O caso, que ficou bastante conhecido, é marcado por requintes de crueldade e por uma grande polêmica sobre o fim que traficantes deram ao repórter.

O terrível assassinato de Tim Lopes foi o assunto mais comentado no Brasil, no ano de 2002, superando, inclusive, a Copa do Mundo de Futebol e a conquista do penta.

Foto e objetos de Tim na mesa da Delegacia (foto G1 reprodução)

Tim era considerado um dos repórteres mais corajosos do país. Negro e morador de comunidade, ele fazia o chamado “jornalismo investigativo” ou “jornalismo suicida”. O repórter trabalhava disfarçado para construir matérias em lugares extremamente perigosos, onde nem a própria polícia conseguia adentrar.

O Rio de Janeiro, no início dos anos 2000, vivia um período de ascensão do tráfico de armas. Com a prisão de Fernandinho Beira-Mar e UÊ, os dois líderes mais importantes do tráfico carioca no final dos anos 90, o poder paralelo do crime nas comunidades passou a ficar difuso nas mãos de outros traficantes e as decisões sobre quem vivia ou morria também ficaram mais descentralizadas.

Foi nesse ambiente que Tim Lopes, em 2001, ganhou o prêmio Esso de Jornalismo com uma matéria muito famosa sobre ” O Feirão da Droga” no Rio de Janeiro. A matéria mostrava como entorpecentes e armas eram vendidos ao ar livre no Complexo do Alemão, conjunto de favelas cariocas. A série jornalística, muito bem produzida, mostrou o rosto de vários traficantes, um deles seria decisivo no destino de Tim: o traficante Ratinho.

Em 2002, após o sucesso, o jornalista recebeu de informantes a notícia de que traficantes estavam organizando bailes funks com a participação e prostituição de menores na Comunidade da Vila Cruzeiro. Lopes, então, passou a investigar o caso com uma câmera escondida. Na comunidade, enquanto trabalhava, foi reconhecido por Ratinho, traficante que foi identificado e preso na reportagem realizada por Tim no ano anterior. Tendo reconhecido o repórter, o bandido levou a descoberta ao chefe do morro, conhecido como Elias Maluco, um sujeito que, segundo moradores, era bastante cruel e desequilibrado, e ficou decidido que um “bonde” (conjunto de pessoas armadas em um carro) ficaria responsável por sequestrar o jornalista e levá-lo para um “julgamento” do crime. Assim, Tim foi colocado dentro de um automóvel, levado da Vila Cruzeiro (na Penha) até a rede de favelas do Complexo do Alemão, mais especificamente na Favela da Grota, onde, em um terreno montanhoso, próximo a um campo de futebol, seria julgado, condenado e morto pelos traficantes.

Segundo as investigações, no local do julgamento de Tim, havia cerca de 20 homens. Todos traficantes ligados a bocas de fumo importantes da região. Houve uma votação, e apenas 9 desses bandidos quiseram participar do processo. Boa parte deles se absteve ou achou um péssimo negócio matar um jornalista da Rede Globo, ainda mais Tim Lopes, o qual tinha origem na comunidade, portanto, bastante conhecido e aceito pela população.
Mas, mesmo com a discussão e sem consultar a alta cúpula da organização criminosa da qual faziam parte, pois Fernandinho Beira-Mar estava preso, Elias Maluco, Ratinho e André Capeta queimaram os olhos de Tim com cigarros, amarram-no em uma árvore e o espancaram por mais de meia hora.

Depois dos intermináveis socos e pontapés, Elias Maluco finalizou o crime decepando as mãos, braços e pernas do jornalista, usando uma espada ninja, tudo isso com o jornalista ainda vivo. O corpo foi carbonizado dentro de vários pneus, que os traficantes chamavam de micro-ondas e depois jogado dentro de uma vala que foi coberta de terra, em um local com o sinistro nome de Pedra do Sapo.

Policiais encontram corpo de Tim Lopes (reprodução folha de sp)

O crime chegou aos ouvidos de todos os bandidos cariocas, que realizaram debates para conjecturar como sairiam daquela situação, pois entendiam que a polícia ocuparia boa parte dos morros por meses a fio, atrapalhando o comércio de entorpecentes e armas.

Após dias de investigação, a polícia chegou aos restos mortais de Tim e começou uma caçada incessante para prender Elias Maluco. Alguns jornais chegaram a publicar que membros de uma organização criminosa o teriam escondido em São Paulo. Mas, no final de 2002, o criminoso foi capturado, exposto, julgado e condenado por tráfico de drogas e homicídio triplamente qualificado, pegando 28 anos de prisão. O destino dos outros 8 participantes do crime foi parecido: três deles morreram em confronto com a polícia, os outros 5 foram julgados e condenados pelas mesmas práticas.

A morte de Tim foi um marco para a história do jornalismo e política de segurança no Rio de Janeiro. Após o caso, as equipes de TV passaram a rever questões envolvendo a segurança de seus funcionários, além disso, toda a crueldade e sistema de julgamentos e mortes impostas por traficantes vieram à tona em filmes e produções literárias e jornalísticas posteriores. O delito também levantou a discussão sobre o poder paralelo nos morros e a insuficiência do Estado em ocupar com a força policial e demais serviços públicos as comunidades cariocas.

Foto – Andrea Farias

(Mais detalhes confira clicando ao lado em nosso podcast)

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