A trajetória de Phillis Wheatley a primeira escritora negra dos Estados Unidos

Criticada até por escritores negros, Phillis rompeu barreiras literárias e influenciou grandes autores da língua inglesa

Phillis Wheatley tinha cerca de sete anos quando foi trazida aos Estados Unidos. Vendida a John Wheatley, ele lhe deu o nome do navio no qual ela foi transportada e a levou para a sua casa para ajudar sua esposa em trabalhos domésticos. Como muitos outros escravizados, não se sabe quase nada sobre sua vida quando era livre, apenas que ela veio da região onde hoje é o Senegal e que deve ter nascido em 1753.

Na casa dos Wheatley, rapidamente Phillis aprendeu o inglês e começou a escrever a partir da observação dos filhos do casal que a comprara. Algum tempo depois, já estava lendo autores como Alexander Pope, John Milton e Thomas Gray, além da bíblia.

Suas leituras serviram-lhe de estímulo para começar a escrever poemas e passar a sonhar com a publicação de um livro.

A realização desse sonho, entretanto, era bastante difícil, as pessoas não acreditavam que uma mulher escravizada fosse capaz de escrever. Havia um pensamento corrente na época de que os negros não tinham capacidade intelectual, por isso, ela foi submetida a uma banca composta por homens brancos e influentes de Massachusetts que, após uma bateria de exames, declararam que Phillis tinha aptidão para a escrita poética.
Ela só conseguiu o apoio para publicar em 1773, quando a condessa de Huntington decidiu financiar a sua obra e publicá-la em Londres, o que trouxe a Phillis Wheatley um reconhecimento internacional e acabou contribuindo para que ela conquistasse a sua liberdade, tendo sido alforriada em 1778, logo após a morte de seu senhor.
No mesmo ano em que se tornou livre, ela conseguiu finalmente lançar seu livro “Poems on Various Subjects, Religious and Moral” nos Estados Unidos, tornando-se a primeira mulher negra a publicar em solo americano e abrindo portas para a tradição literária afro-americana.

Os poemas reunidos nessa coletânea falam sobre política, religião, moralidade, patriotismo e memória. Além disso, a obra apresenta uma tradução em inglês, feita a partir do latim, da obra “Metamorfose”, de Ovídio, revelando a influência da poesia clássica na constituição da produção poética de Phillis.

Embora tenha tido um papel pioneiro na literatura afro-americana, Wheatley foi alvo de crítica de escritores negros do século XX, que lamentavam o fato dela não abordar de forma mais explícita a opressão praticada contra pessoas escravizadas em solo americano. Alguns críticos diziam que, por ter passado a vida toda entre brancos, a autora assimilara as ideologias eurocêntricas em sua poesia, desconsiderando, assim, os sofrimentos de seu povo.
Atualmente, sua obra tem sido revisitada e outros estudiosos têm destacado que as críticas à Phillis Wheatley não se sustentam. Para esses autores, ela usou em seus poemas as armas que tinha: o conhecimento da poesia clássica e da bíblia e, através de linguagem metafórica, mostrou algo que sempre foi negado ao negro escravizado: sua humanidade e a força de sua capacidade intelectual. Mesmo não tendo a escravidão como tema principal de sua obra, ela inseriu reflexões sobre a questão em vários de seus poemas e deixou claro que não concordava com a violência com que os africanos foram arrancados de sua pátria e trazidos para o território americano, como mostram versos como estes: “Eu, jovem na vida, por um destino cruel semelhante / Fui apanhada de um lugar feliz na África: / Que excruciante dor deve ter sido / Que tristezas profundas no coração de meus pais?”.

Memorial em homenagem à autora, construído em Boston

Phillis Wheatley conseguiu publicar apenas um livro, morreu na miséria em 1784, mas deixou um importante legado para a literatura, escrevendo seu nome na história ao conseguir provar que uma mulher escravizada era capaz de escrever com propriedade, ler clássicos da literatura e explorar recursos poéticos que exigiam um domínio da escrita que apenas grande poetas eram capazes de ter.

Referências:

Santos, José de Paiva dos. “Nação, raça e identidade em ‘Poems on Various Subjects, Religious and Moral’, de Phillis Wheatley”. Aletria, Belo Horizonte, v. 28, n. 3, p. 83-102, 2018. http://www.periodicos.letras.ufmg.br/index.php/aletria/article/view/13765
https://www.poetryfoundation.org/poets/phillis-wheatley
https://www.britannica.com/biography/Phillis-Wheatley
https://ushistoryscene.com/article/phillis-wheatley/

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