As vozes que rompem o silenciamento em “Torto arado”

A luta pela posse da terra, a exploração do trabalhador, as relações entre passado e presente, tradição e progresso, a escassez e a miséria são alguns dos temas explorados em “Torto arado”, de Itamar Vieira Jr. A obra já conquistou diversos prêmios e uma gama enorme de leitores e traz em suas páginas muitas questões sobre o Brasil.

Construído como um romance polifônico conduzido por três vozes femininas, “Torto Arado” começa com um acidente que marcará para sempre a vida de Bibiana e Belonísia, as protagonistas narradoras da história.

Ainda na infância, as duas irmãs se veem fascinadas pela faca de sua avó Donana, sem imaginar que esse objeto cortante mudaria para sempre as suas vidas. Escondida no interior de uma mala, a faca desperta fascinação nas meninas, é como se as hipnotizasse com a aura de mistério que a envolve. As duas garotas acabam se cortando com a faca ao colocá-la em suas bocas para sentir o gosto que ela tinha. A lâmina afiada não perdoará a curiosidade e uma delas perderá parte da língua, não conseguindo mais falar depois disso.

A partir daí, as duas irmãs se transformarão em uma espécie de duplo uma da outra, em que a voz daquela que fala, expressa o dizer daquela que foi consumida pelo silêncio. A necessidade de falar e a impossibilidade de dar voz a esse dizer será um tema importante na obra. O relato oral é muito forte na cultura daquelas quarenta famílias que vivem em Água Negra, uma fazenda localizada na Chapada Diamantina, e que encontra nas histórias de seus ancestrais a força para enfrentar os caminhos tortuosos que marcam suas vidas.

A ancestralidade é outro tema muito importante dentro do livro. Zeca Chapéu Grande é o pai das protagonistas e líder religioso da comunidade onde vive. Ele é um sacerdote do jarê, religião típica daquela região que mistura crenças africanas, católicas e indígenas. Seu papel é cuidar do corpo e do espírito de quem vive em sua comunidade. Assim, distante de médicos, cabe a ele ministrar remédios produzidos a partir de plantas para curar as dores físicas. Cabe a Zeca e à sua esposa trazer à vida cada criança que nasce em Água Negra. É nas celebrações realizadas em sua casa que aparecem os Encantados, entidades ancestrais, fortemente ligadas à natureza, à terra e que servem como ponte entre o mundo material e espiritual. O jarê é fundamental para aquela comunidade, é ele quem une os moradores daquele lugar e os conecta àquela terra, lembrando-lhes do seu passado, explicando o presente e permitindo sonhar com o futuro.

Quase todos negros, descendentes de escravizados, aquele povo vive uma espécie de escravidão moderna. Cada família recebe um pedaço de terra e tem direito a uma casa de barro e a uma plantação de onde tirar o sustento. Todo o resto que produzem é do dono da fazenda. Eles estão proibidos de construir casas de alvenaria, pois isso significaria criar uma ideia de permanência, o que é vetado por quem detém a posse da terra.

Ao longo do livro, esses homens e mulheres de Água Negra passam a se identificar como quilombolas e a reivindicar o direito sobre aquela terra, isso vai gerar um conflito com os donos da fazenda e uma série de reflexões sobre nosso passado colonial e os seus resquícios que insistem em permanecer firmes em nosso país. A consciência do direito à terra vem junto com a repressão e a violência, sempre lembrando que nunca é pacífica a luta de quem teve seus direitos usurpados ao longo de toda a vida.

Apesar da violência com que são tratados, eles acreditam que pode haver justiça. A consciência política construída a partir do acesso à educação formal e à mobilização sindical, os levará à luta organizada, à busca judicial pela terra. A luta pela sobrevivência vai se transformar em mobilização e resistência. Sob a liderança de Bibiana e seu esposo Severo, eles buscarão documentos que lhes assegurem a permanência naquele lugar que deveria ser deles, mas que lhes é negado a cada instante.

A terra de onde tiram o sustento, a terra que abriga os seus mortos, a terra onde criaram seus filhos, a terra onde construíram as suas histórias, mas que nunca lhes pertenceu de verdade, cuja posse é negada a todo instante, cujo direito parece impossível de ser alcançado. É essa terra que moverá Bibiana e Belonísia, cada qual à sua maneira, a seguir lutando.

A força das personagens femininas é outro elemento fundamental dentro da obra. Mulheres que combatem o machismo, que buscam o seu lugar e que fazem ouvir a sua voz, mesmo quando condenadas ao silêncio, são o fio condutor do romance. É através delas que tantas vozes historicamente silenciadas passam a ser ouvidas. É através delas que a luta não cessa e vamos caminhando com elas por esse chão batido com muito suor e sangue de gerações inteiras de homens e mulheres que passaram a vida lutando pelo direito de existir.

É através de uma voz feminina também que temos o desfecho do livro e somos levados para um “rio de sangue” que ata as pontas do enredo, explicando as questões que ainda estavam em aberto. Nessa parte, a encantada Santa Rita Pescadeira nos conduz para um mergulho no passado daquele povo, nas tradições que estão se perdendo e nas dores de quem vive um presente de incertezas e perdas. Nesse desfecho, embarcamos nesse rio cheio de sangue, luta, injustiça e dor e temos a reafirmação de que “sobre a terra há de viver sempre o mais forte”.  

Referências:

VIEIRA JR, Itamar. Torto Arado. 1a. ed. São Paulo: Todavia, 2019.

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