“O homem invisível”: uma reflexão sobre a invisibilidade provocada pelo racismo

“Sou um homem invisível. Não, não sou um espectro como aqueles que assombravam Edgar Allan Poe; nem sou um ectoplasma do cinema de Hollywood. Sou um home com substância, de carne e osso, fibras e líquidos, e talvez até se possa dizer que possuo uma mente. Sou invisível – compreende? – simplesmente porque as pessoas se recusam a me ver. Como as cabeças sem corpo que algumas vezes são vistas em atrações de circo, é como se eu estivesse cercado daqueles espelhos de vidro duro que deformam a imagem. Quando se aproximam de mim, só enxergam o que me circunda, a si próprios ou o que imaginam ver – na verdade, tudo, menos eu” (p. 39).

Assim se inicia o prólogo de “Homem invisível”, obra publicada em 1952 pelo escritor norte-americano Ralph Ellison e que fez história como um dos grandes romances afro-americanos produzidos na contemporaneidade.

Escrito em um momento no qual começam a surgir os movimentos que lutam pelos direitos civis dos negros nos Estados Unidos, o livro de Ellison traz uma reflexão sobre o que é ser negro em um país que não trata os seus cidadãos com igualdade.

Narrado em primeira pessoa por um narrador anônimo, o que reforça ainda mais a sua invisibilidade, a obra apresenta a saga desse homem em busca da construção de sua própria história e da compreensão do que significa essa invisibilidade que o constitui.

É muito mais do que uma apresentação dos desafios enfrentados por um homem negro em um mundo dominado por brancos, é uma reflexão psicológica sobre o estar no mundo e sobre um sistema social, político e econômico que torna invisíveis aqueles que vivem à margem das esferas de poder.

A partir da trajetória desse narrador anônimo, vamos acompanhando o seu percurso por uma universidade para negros, a sua ida para Nova York e todos os desafios enfrentados ali: a busca por um emprego, a internação em um hospital, o ingresso em uma irmandade, até o seu isolamento em um porão subterrâneo, a partir de onde ele narra a sua trajetória e procura compreender o que significa ser invisível. Tal qual o narrador de “Memórias do subsolo”, de Dostoiévski, vemos um homem mergulhado nas profundezas de sua alma, que procura compreender a si e ao mundo que o cerca.

Vindo do Sul, em uma época em que as marcas da escravidão ainda eram profundas ali, esse homem vai para o Norte e se vê em meio à luta contra a segregação racial, ao mesmo tempo em que percebe que as bandeiras levantadas pelos negros jamais seriam as mesmas levantadas pelos brancos, nem mesmo na irmandade na qual ele se se insere. Embora seja chamado de irmão, a ele não cabe ter uma opinião própria, apenas agir de acordo com a ideologia do grupo, mantendo-se invisível em sua individualidade. 

Imerso no subterrâneo da cidade e também em seu próprio subterrâneo, o narrador anônimo mostra o caminho por ele seguido até alcançar a compreensão total de sua invisibilidade. Inicialmente, ele tentou se adaptar a essa sociedade que não o enxergava, tentou servir passivamente os brancos que o apagavam, mas uma sucessão de acontecimentos foi lhe mostrando que, por mais que tentasse, não acharia o seu lugar nesse mundo que apagava a sua subjetividade e lhe reservava apenas a possibilidade servir.

Tomar consciência do seu lugar e do lugar reservado para as pessoas de sua raça é um processo doloroso, marcado por humilhações, questionamentos e tentativas de romper com essa ordem que não poderia ser naturalizada, mas era tratada como a única ordem possível dentro daquela estrutura social.

Diante de um racismo que invisibiliza o ser humano, tornar-se consciente dessa invisibilidade marca o processo de amadurecimento do narrador, que tenta controlar o próprio destino, mas descobre que isso não é possível, que em um mundo racista e individualista, há um apagamento do eu. Resta-lhe, entretanto, a palavra, uma palavra que ecoa do subsolo, que expressa revolta e desmascara as contradições humanas, revelando que não há como encontrar o seu lugar no mundo quando se vive imerso em uma estrutura social que o mutila e o apaga diariamente.

O que sobra é apenas a consciência de ser invisível e de que, quem sabe, apesar de estar sozinho nas profundezas da cidade, não falar apenas por si, mas por uma legião de homens invisíveis que são apagados pelo sistema vigente: “Ser invisível e sem substância, uma voz desincorporada, como foi, o que podia fazer? O que mais, senão tentar dizer a você o que efetivamente acontecia quando seus olhos não me enxergavam? E é isso que me aterroriza. Quem sabe se, nas frequências mais baixas, eu falo também por você?”  (p. 572)

Referências:

ELLISON, Ralph. “Homem invisível”. Rio de Janeiro: José Olympio, 2020.

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