“Mundos de uma noite só”: uma odisseia íntima pelo mundo feminino

A obra mostra, com um fôlego e descrição impecáveis, os diversos caminhos da vida, na construção do ser mulher

“Você pode amar literatura, conhecer de cor e salteado milhões de versos, ser um apaixonado por histórias. Mas isto não o torna um escritor, não, isto não o torna. Esta é a realidade, não estou disposta a fazer concessões para ganhar sua simpatia. Você pode citar trechos de romances difíceis, adotar um tom arrogante, criticar autores sofisticados, mas os outros saberão que lhe falta o toque mágico necessário. O escritor é alguém que executa muito bem as ordens do invisível. Portanto, além de persistente, você também precisa se permitir o desconhecido para que seu próprio talento se revele” (p. 149). A citação retirada do livro “Mundos de uma noite só”, de Renata Belmonte é um pequeno exemplo da força da prosa dessa autora em seu romance de estreia.

Sem dúvida, seu livro é marcado pela execução de traços da ordem do invisível, que nos levam a um mergulho em um turbilhão de palavras e vozes que vão traçando a trajetória de diferentes mulheres ligadas por um sobrenome que marca as suas histórias.
Publicado em 2020, o romance de Belmonte é construído a partir de duas narrativas que se entrecruzam. Inicialmente, somos apresentados à voz de uma mulher que procura compreender o passado de sua família e, assim, encontrar a si mesma, curar as “largas feridas espalhadas” por sua alma e por seu corpo.
Ao lado dessa história, marcada por intenso fluxo de consciência, somos apresentados aos 13 capítulos de “Uma valsa para o esquecimento”, narrativa que será a chave para que a protagonista componha o quebra-cabeça que marca a sua vida e que lhe traz tanta dor.
Há muitos pontos que prendem o leitor nesse romance de Renata Belmonte. Um deles é a polifonia. A multiplicidade de vozes que ecoam de suas páginas e vai compondo a trajetória da família de Menezes Grimaldi é um dos pontos altos do livro. Entre o dito e o não dito, a narrativa vai sendo construída e nos levando a tentar desvendar os mistérios que se escondem por traz dessas duas partes do romance que, embora separadas, estão sempre unidas pelas cicatrizes que marcam cada personagem.
De forma sutil, mas sempre presente, acompanhamos também a trajetória do Brasil ao longo do século XX, vemos o tratamento dado às mulheres ao longo desse período, observamos o lugar ocupado pelos homens, as relações políticas, o patriarcalismo, as desigualdades sociais e todas as suas consequências.


O contexto histórico vai sendo delineado a partir de toques sutis, já que o grande foco do enredo é a subjetividade das personagens, é o modo como vão se constituindo e buscando a sua própria identidade.
A narradora da primeira narrativa mergulha profundamente nesse processo de descoberta do eu, em uma incessante busca pelo pai, como se encontrá-lo fosse o caminho para encontrar a si mesma. Crescendo em uma casa em que não “havia fotografias com homens”, ela tentava compreender a sua própria feminilidade, entender a relação que mantinha com a mãe e com Lágrima, as duas mulheres com quem dividia o pequeno apartamento onde morava. Ao mesmo tempo em que procurava naqueles porta-retratos a história da família que nunca teve, lidava com as transformações vividas em seu corpo e em sua alma, sonhava com um destino diferente, mesmo sem acreditar que fosse possível mudar um destino já traçado.

A vida dos personagens se entrelaçam e interagem com a história do Brasil do Século XX


Entrecortada em meio a esse mergulho interior, “Uma valsa para o esquecimento” tem como personagem central a Senhora de Menezes Grimaldi e o modo como ela constitui a sua família, trocando uma relação com um pai autoritário por um casamento marcado por ilusões e decepções. Em uma trama cheia de traições, abusos, jogos de interesse e grandes traumas psicológicos, vemos como o interior dessa família é marcado por relações quebradas, por um jogo de aparências que esconde muita dor. Nesse ir e vir entre as duas histórias, mergulhamos em um mundo introspectivo que lembra as narrativas de Clarice Lispector e que nos conduz para um universo feminino cheio de dilemas, traumas e hesitações.
A polifonia se faz presente não só na multiplicidade de vozes que ecoa das personagens, ela aparece também nas muitas referências literárias que pulsam dentro do livro de Renata Belmonte e que mostram a força da sua escrita também a partir do diálogo que mantém com as suas leituras. Simone de Beauvoir, Albert Camus, Clarice Lispector estão presentes nas páginas desse romance envolvente que caminha para um final que esclarece os muitos enigmas da alma da protagonista, mas que nos faz voltar ao início e nos perguntar se tudo aquilo era realmente possível.
Nesse retorno ao princípio, a epígrafe de “Medeia” acaba se revelando como uma boa chave de leitura para compreender os meandros da alma da personagem principal e dos dilemas que marcam o seu percurso: “Navegaste com ânimo impetuoso para longe da morada paterna. Transpondo os duplos rochedos do mar e, agora, habitas uma terra estranha”.
Ler “Mundos de uma noite só” é caminhar por essa terra estranha e perceber que muito do que a habita está presente também em nossas relações cotidianas.

Please follow and like us: