“O Alienista”: a discussão machadiana sobre loucura, ciência e a natureza humana

“As crônicas da vila de Itaguaí dizem que em tempos remotos vivera ali um certo médico, o Dr. Simão Bacamarte, filho da nobreza da terra e o maior dos médicos do Brasil, de Portugal e das Espanhas”, com esse trecho, Machado de Assis inicia “O alienista”, obra originalmente publicada em 1881, no periódico “A estação” e lançada no livro “Papéis avulsos”, no ano seguinte.

O texto narra a história do médico Simão Bacamarte, que se muda para o interior do Rio de Janeiro com o objetivo de realizar estudos psiquiátricos. Com seu típico olhar crítico para o comportamento humano, Machado de Assis constrói um personagem totalmente fixado em seu experimento científico, construindo todas as suas relações sociais a partir desse olhar. Para ele, “a ciência é a ciência”, não há o que se questionar.

Moldando a sua vida a partir desse paradigma, quando ele decide se casar, escolhe a viúva D. Evarista como esposa porque acredita que, pela sua forma física, ela será capaz de lhe dar bons filhos. Os filhos, no entanto, nunca chegam e ele julga que o problema é exclusivamente da mulher e passa a dedicar-se aos mistérios da mente humana, tentando compreender qual é o limiar entre razão e loucura. Para isso, ele constrói um manicômio, ao qual dá o nome de Casa Verde e passa a internar todos os loucos de Itaguaí e região.

Obcecado por seu trabalho, Bacamarte vai internando cada vez mais pessoas, sempre buscando compreender os diferentes graus de insanidade e curar aqueles que ele considera anormais. Com o passar do tempo, porém, isso vai incomodando os moradores da cidade, ao ponto de gerar uma manifestação dos descontentes diante da Casa Verde.

Apesar da rebelião, as internações continuam e chega-se ao ponto em que 75% da população de Itaguaí está internada. Simão Bacamarte, conclui, então, que sua teoria está errada e que loucos eram aqueles que mantinham uma regularidade em seus comportamentos. Assim, ele libera todas as pessoas que estavam internadas e passa a internar aquelas que possuíam uma firmeza de caráter.

Após algum tempo, o médico percebe novamente uma falha em sua teoria e dá alta aos seus pacientes, pois conclui que a única pessoa que tinha uma personalidade perfeita era ele próprio. Desse modo, Simão Bacamarte se interna sozinho na Casa Verde, só saindo de lá morto, 17 meses depois.

Ao criar um personagem completamente obcecado pela compreensão da loucura e pela busca de um remédio universal para combatê-la, Machado de Assis faz uma crítica ao cientificismo do século XIX, ao mesmo tempo em que reflete sobre o comportamento humano, desmascarando a vaidade e o egoísmo que movem as ações do ser humano e mostrando como há uma linha tênue entre loucura e sanidade e como, muitas vezes, a definição do normal e do patológico é muito mais fruto do olhar do outro que de parâmetros estritamente científicos. Em tempos em que a discussão em torno da internação compulsória, da lei antimanicomial e do olhar para a saúde mental tornam-se cada vez mais fortes, ler “O Alienista” é se deparar com esse debate e com a visão crítica e irônica de Machado de Assis sobre uma concepção científica que quer provar sua teoria a todo custo.

Numa época em que a ciência se encontra em disputa, mesmo com todas as falhas da teoria de Simão Bacamarte, vale lembrar o que ele dizia: “- Meus senhores, a ciência é coisa séria, e merece ser tratada com seriedade”.

Referências:

ASSIS, Machado. “O Alienista”. Rio de Janeiro: Antofágica Editora, 2019.

ASSIS, Machado. “O Alienista”. Adaptação de Fábio Moon e Gabriel Ba. Grandes Clássicos em Graphic Novel. São Paulo: Agir, 2007.

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