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Marcha para o inferno: como foi o Golpe Militar de 1964


“Conheço o meu país / no escuro – pelo tato. / E se me amarram as mãos nas costas / conheço pelo cheiro. / E se me tapam o nariz / ainda assim conheço o meu país / pelo que dele sobra / à minha volta”. Esses versos de Zulmira Ribeiro Tavares fazem referência à ditadura militar que marcou a história do Brasil por 21 anos e ainda hoje é motivo de muitas discussões e polêmicas. Há quem diga que o próprio termo ditadura é inadequado para se referir a esse momento e defenda o uso da expressão “regime militar”, outros dizem que o correto é “ditadura civil militar”, pois os militares contaram com o apoio de uma ampla camada de civis. Por fim, há aqueles que afirmam que esse tipo de discussão é apenas um revisionismo histórico e que quem encampa esse discurso está tentando apagar todas as violações de direitos que foram cometidas durante esses anos.

Do ponto de vista linguístico, ditadura é exatamente o nome que deve ser dado a esse período, pois o que se viu aqui foi a derrubada de um governo legítimo, a violação dos direitos individuais, a repressão da liberdade de expressão, a censura da imprensa, a cassação de deputados e perseguições de toda ordem, tudo isso implantado a partir de um golpe.

O golpe militar começou a tomar a sua forma no dia 31 de março de 1964 e foi sacramentado na madrugada de 1º para 2 de abril de 1964, quando Auro de Moura Andrade, presidente do Senado, declarou que o cargo de presidente da República estava vago.

Para compreender o caminho que levou o Brasil a isso, é importante voltar alguns anos na história. Em 1961, o presidente Jânio Quadros renunciou ao seu cargo, o que levaria o vice-presidente João Goulart ao poder.

Jango, entretanto, era visto pelos militares como comunista e isso seria um empecilho para assumir. Na ocasião, ele estava voltando de uma viagem à China, os militares aproveitaram a situação e articularam junto ao Congresso que ele assumisse sob o regime parlamentarista.

Em 1963, um plebiscito foi organizado e 82% dos eleitores optaram pela volta do regime presidencialista, tendo João Goulart como presidente. O problema é que a ligação dele com Getúlio Vargas incomodava a direita conservadora. Além disso, ele defendia algumas políticas que desagradavam uma parcela da população, o que fez com que todo o seu governo fosse marcado por polarização política e ideológica.

Algumas manifestações públicas como a Marcha da Família com Deus pela Liberdade, começaram a expressar o descontentamento de um certo grupo dentro do país, cobrando uma intervenção militar contra o “comunismo infiltrado e antibrasileiro”.

Nesse contexto, o desejo de derrubar Jango vai sendo articulado e, assim, chegamos ao dia 31 de março de 1964, momento em que o general Olímpio Mourão, do batalhão de Minas Gerais do Exército, pega uma série de tanques e parte em direção ao Rio de Janeiro, encontrando apoio de Carlos Lacerda, governador da Guanabara, de parte do grande empresariado, de alguns meios de comunicação, da Igreja Católica e de um número significativo de civis.

O grupo de conspiradores sai do Rio de Janeiro e ruma para Brasília. Na virada da noite, o Planalto já estava ocupado e a exigência de que João Goulart deixasse o cargo já havia sido feita.

Diante da situação, Jango fugiu para o Rio Grande do Sul, onde contava com um forte apoio e tinha o governador Leonel Brizola como defensor da “Legalidade”.

Os militares ocupam o Congresso Nacional e o líder do Parlamento, Ranieri Mazzilli, declara que a Presidência da República está vaga, sob a alegação de que o presidente teria fugido para o Uruguai.

Diante da manobra feita pelos conspiracionistas, o Congresso convoca uma nova eleição indireta e declara Humberto de Alencar Castelo Branco como primeiro presidente militar do Brasil. Desse modo, o golpe era concretizado, João Goulart partiria para o exílio, diversos deputados, governadores e membros de partidos políticos foram cassados e a perseguição a supostos inimigos do regime foi se intensificando. Mesmo dentro do Exército houve cassações e perseguições a certos grupos.

Embora Castello Branco defendesse o retorno democrático a um governo civil, isso não ocorreu e o país enfrentou uma ditadura até 1985, acumulando corpos de opositores, enchendo seus porões com pessoas torturadas, fechando o Congresso e censurando a imprensa.

A mancha deixada por esse trágico período reflete até hoje na trajetória do Brasil. Muito mais do que a derrubada de João Goulart, o golpe de 64 afundou o país em um mar de lama que deixou marcas profundas em quem por ele passou.

O fim do governo Jango fez com que os projetos de nacionalização da economia, ampliação do corpo político do país e reforma agrária fossem substituídos por um regime anticomunista e anti-reformista, que defendia uma política desenvolvimentista e que rejeitava políticas voltadas às grandes massas.

Ao lado disso, a repressão contra os opositores foi se tornando cada vez maior e mais violenta, milhares de pessoas foram presas de forma irregular, a tortura foi se naturalizando e o discurso de que a tomada do poder pelos militares foi necessária para proteger o país do perigo do comunismo e salvá-lo da crise financeira que viera junto com a instabilidade política foi ganhando muitos adeptos.

Além do apoio que os militares ganharam de diversos setores da sociedade brasileira, os Estados Unidos também apoiaram o governo militar sob o argumento de que o Brasil não viraria uma nova Cuba.

A alegação de que um “inimigo interno” se articulava para implantar o comunismo no país foi uma bandeira forte para defender a ditadura e a perseguição aos subversivos. Assim, a violação de direitos, implantada por um governo autoritário e que assumiu o poder de forma ilegal, era o preço a se pagar para escapar da “ameaça comunista”.

Em nome do combate a essa ameaça, os militares contaram com o apoio da elite, mas também da classe média, que se sentia protegida e esperava o desenvolvimento do país. Ao lado disso, a supressão da liberdade, a perseguição aos opositores, a arbitrariedade das prisões e a morte de quem era considerado subversivo iam aumentando e espalhando uma trilha de corpos e uma longa lista de desaparecidos, deixando no seio do Brasil uma imensa ferida que ainda não cicatrizou.

Referências:

https://www.fflch.usp.br/sites/fflch.usp.br/files/2017-11/Golpe%20civil-militar%20de%201964.pdf

IANNI, Octavio. “O colapso do populismo no Brasil”. 2ª ed. Rio de Janeiro: Ed. Civ. Brasileira, 1971

GASPARI, Elio. “A ditadura Envergonhada”. São Paulo. Companhia das Letras, 2002.

Rezende, Maria José de. A ditadura militar no Brasil: repressão e pretensão de legitimidade: 1964-1984” [livro eletrônico] / Maria José de Rezende. – Londrina : Eduel, 2013.  http://www.uel.br/editora/portal/pages/arquivos/ditadura%20militar.pdf

ATASSIO, Aline. Prado. “A batalha da memória: os militares e o golpe de 1964. Dissertação de Mestrado. São Carlos: UFSCar, 2009. https://repositorio.ufscar.br/bitstream/handle/ufscar/1483/2514.pdf?sequence=1

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