O que é o colorismo: o pensamento que defende existir hierarquia de privilégios entre pessoas da mesma “raça”

Entre muitos debates históricos no Brasil, ligados ao movimento negro, há um tema conhecido como colorismo. Essa questão veio à tona essa semana com os comentários de participantes do BBB, após Gilberto, um influencer e participante da casa, se autodeclarar negro. Outros participantes, com tom de pele mais retinta, rechaçaram o participante como membro da mesma raça.

Mas o que significa esse termo?

O termo colorismo existe há pelo menos quarenta anos. Ele surgiu no livro de Alice Walker, “If the Present Looks Like the Past, What Does the Future Look Like?”, e se espalhou pelo mundo. No Brasil, uma parte do movimento negro defende que há como fazer uma classificação pelo tom da pele da pessoa. Pretos e pardos são negros, mas os pretos sofrem mais racismo que os pardos, por conta da cor da pele mais retinta.

Geralmente, o racismo é identificado por membros de raças e grupos étnicos diferentes. O colorismo pode ser interpretado como uma separação e um processo de discriminação no mesmo grupo, separando seus indivíduos por tons de pele.

No Brasil, um país bastante miscigenado, o IBGE classifica a pessoa pela autodeclaração. Pardos e pretos são considerados negros, independente do tom de pele.

A discussão é bastante importante, mas também causa uma cisão e classificação dentro da causa antirracista, pois se discute, de forma exaustiva, qual é o papel de cada tom de pele na luta contra a opressão e, consequentemente, quem pode opinar mais e ser mais ouvido.

Segundo esse pensamento, os tons de pele menos retintos possibilitam a circulação das pessoas em mais lugares e uma maior aceitação social.

Em um país com grande miscigenação como o Brasil, o tom de cor é bastante relativo, dependendo do lugar no qual se está. Em um condomínio de luxo, onde a maioria esmagadora é formada de brancos, um homem pardo, com traços típicos de uma pessoa negra, é considerado o mais preto do lugar. Assim como essa mesma pessoa, em um lugar com muitos pretos, pode ser considerada branca. Essa relação causa inúmeros conflitos entre os próprios negros e cria também relações de poder dentro da causa.

Além disso, é importante lembrar que na história de nosso país esse processo de miscigenação aconteceu através do uso da força, com brancos estuprando mulheres negras e indígenas. Assim, a segregação racial foi fruto de uma violência que surgiu junto com a colonização e que fez com que historicamente aproximar-se do pai branco fosse uma forma de alcançar algum privilégio, enquanto manter as raízes negras tinha exatamente o efeito contrário.

É fato que no Brasil, quanto mais retinta for a pele da pessoa, mais aumenta as chances de ela sofrer racismo. Apesar das estatísticas mostrarem que pardos são maiores alvos da violência policial. O tema é complexo e não há um consenso no debate. Porém, há inúmeras discussões de como a adoção desse conceito como visão de mundo pode causar e causa discriminações dentro do mesmo grupo racial, muitas vezes, atrapalhando a coesão da luta contra o racismo em um país no qual as atitudes racistas estão na estrutura da sociedade.

Referências:

Silva, L. A. da, & Santos, G. A. dos. “Colorismo e reconhecimento: aspectos da construção identitária dos pardos e mestiços no contexto brasileiro”. São Paulo: Universidade de São Paulo, 2018.

https://www.copene2018.eventos.dype.com.br/resources/anais/8/1528683135_ARQUIVO_ContradicoesdoColorismoResumoXCopene.pdf

MUNANGA Kabengele. “Rediscutindo a mestiçagem no Brasil: identidade nacional versus identidade negra”. Petrópolis, RJ: Vozes, 1999.

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