Arthur Bispo do Rosário: a arte que emerge dentro de um hospital psiquiátrico

“Um dia, eu simplesmente apareci”. Era desse modo que o artista plástico Arthur Bispo do Rosário explicava a sua origem. De fato, não há informações precisas sobre o seu nascimento nem sobre a sua história antes de passar pelas clínicas psiquiátricas que marcaram grande parte de sua vida.

Sabe-se que ele nasceu em Japaratuba, no Sergipe, acredita-se que em 1911. No ano de 1925, mudou-se para o Rio de Janeiro e entrou para a Marinha Brasileira, paralelamente ao seu trabalho como marinheiro, começou a lutar boxe, mas sua atividade como pugilista não era bem vista na Marinha, o que fez com que fosse expulso em 1933. Depois disso, trabalhou na companhia de eletricidade Light, ficando lá até 1937. Em seguida, passou a trabalhar para a família do advogado Humberto Magalhães Leoni, recebendo teto e comida em troca dos serviços prestados.

Em dezembro de 1938, Bispo do Rosário disse ter visto Cristo descendo do céu, rodeado por anjos azuis. A partir desse momento, passou a dizer que tinha recebido a missão divina de recriar o mundo, que era filho de Deus e havia sido adotado pela Virgem Maria. Ele peregrinou por várias igrejas, chegando ao Mosteiro de São Bento, onde declarou que era “um novo Messias enviado por Deus para redimir a humanidade”. Preso por perturbação da ordem pública, foi fichado como um indigente negro.  Encaminhado ao Hospital dos Alienados, na Praia Vermelha, recebeu o diagnóstico de esquizofrenia paranoide e vai passar os próximos 50 anos de sua vida em clínicas psiquiátricas.

Sem sinais de melhora, foi encaminhado à Colônia Juliano Moreira e lá permaneceu até a sua morte, em 1989. 

Construída para atender doentes mentais que não tinham condições de retornar ao convívio social, a Colônia visava instituir um atendimento humanizado, que transmitisse aos pacientes a ideia de liberdade. Embora também fizesse uso de eletrochoques e contenção física de pacientes considerados agressivos.

Nesse ambiente, Arthur Bispo do Rosário desenvolveu a sua arte, criando cerca de mil peças produzidas com materiais que faziam parte de seu cotidiano. Ele utilizava canecas de alumínio, botões, colheres, madeiras de caixas, calçados, garrafas, tecidos e toda sorte de objetos possíveis para compor as suas obras. Produziu muitos bordados a partir de lençóis, roupas e fios de seu uniforme, cuidadosamente desfiados e transformados em arte em suas mãos.

O manto da apresentação ao Juízo Final, Tecido, fio e corda. 

Fazendo uso de sucata e objetos encontrados dentro da instituição psiquiátrica, ele produziu mantos, relicários, esculturas e móveis, compondo um rico acervo artístico, que foi declarado patrimônio cultural pelo Iphan, e se encontra exposto no Museu Bispo do Rosário na antiga Colônia Juliano Moreira.

A partir da década de 1980, o trabalho de Bispo passou a ser reconhecido como obra de arte e, em 1982, foi realizada a exposição “À margem da vida” no Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro, o que deu visibilidade à obra do artista e reforçou a importância do uso da arte no tratamento psiquiátrico.

Casaco Bordado

Muitas de suas obras foram dedicadas à Rosângela Maria Magalhães Gomy. Na época, ela era estagiária de Psicologia e realizava visitas periódicas a Bispo do Rosário. A sua produção foi tema de curtas-metragens, livros e peças de teatro e foi apresentada na Bienal de Veneza, em 1995.

Em 2003, 79 de seus trabalhos foram expostos na Galerie Nationale du Jeu de Paume, de Paris, na mostra “La Clé des Champs et Arthur Bispo do Rosário”, que reuniu 117 obras produzidas por pacientes com distúrbios mentais de diferentes lugares do mundo.

Suas obras trazem muitas referências cristãs, dialogam também com a arte indígena e africana, apresentando forte influência da infância e adolescência vivida no Nordeste. Do ponto de vista artístico, ele usa a técnica da “assemblage” e “bricolage”, misturando palavras, formas e cores e dando uma nova função aos objetos.

Veleiro

Bispo do Rosário não se considerava um artista, dizia fazer “o que a voz mandava”, construindo um mundo melhor depois do juízo final. Para ele, Deus o havia mandado coletar e catalogar os objetos do mundo e as pessoas, para que fossem resgatados após o Apocalipse.

Arthur Bispo do Rosário deixou uma obra marcada pela multiplicidade de técnicas, cores e objetos, encontrando na arte a forma de lidar com a vida no hospital psiquiátrico e liberando em suas produções aquilo que estava guardado em seu inconsciente.

Referências:

BURROWES, Patrícia. O Universo Segundo Arthur Bispo do Rosário. Rio de Janeiro: Editora da Fundação Getúlio Varas, 1999.

DURÃO, Fabio Akcelrud. “Arthur Bispo    do Rosário: a artimanha da arte brasileira”. Revista Versalete. Curitiba, Vol. 5, nº 9, jul.-dez. 2017. Disponível em: http://www.revistaversalete.ufpr.br/edicoes/vol5-09/18%20Professor%20convidado.%20F%C3%A1bio%20Dur%C3%A3o.%20Arthur%20Bispo%20e%20a%20a%20artimanha.pdf

HIDALGO, Luciana. Arthur Bispo do Rosário – O Senhor Labirinto. Rio de Janeiro: Rocco, 1996.

LOPES, Davi Moreira. Garganta Grita: Arthur Bispo do Rosário e o silenciamento produzido pelos Regimes de Autorização Discursiva. Dissertação de Mestrado. Universidade Federal do Ceará, Instituto de Cultura e Arte, Programa de Pós-graduação em Comunicação, Fortaleza, 2019. Disponível em: http://www.repositorio.ufc.br/bitstream/riufc/50000/1/2019_dis_dmlopes.pdf

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