Conheça a obra “1984”, de George Orwell

A leitura, que voltou ao topo da lista de mais vendidos, é fundamental para entender questões da atualidade como o conceito de verdade, mentira, manipulação de informações e as famosas fake news.

A edição ilustrada de 1984, de George Orwell - Geekness

“Guerra é paz. Liberdade é escravidão. Ignorância é força”. Esse trecho é a epígrafe da obra “1984”, de George Orwell, livro publicado pela primeira vez em 8 de junho de 1949 e que se tornou um clássico da literatura universal, sendo traduzido em 65 países e adaptado em minisséries, filmes, quadrinhos, mangás e até uma ópera.Considerado um romance distópico, “1984” apresenta um mundo dividido entre a Oceania, onde se passa a história, a Eurásia e a Lestásia, todos vivendo sob regimes totalitários e em estado de guerra.

Rebel Angels: Maps of George Orwell's 1984

Em Oceania, temos uma sociedade totalmente controlada pelo Grande Irmão, um líder que todos devem idolatrar, obedecer e respeitar cegamente, mostrando que a alienação é fundamental para a manutenção do regime e que quem questiona a ordem vigente é perseguido e eliminado. Em um mundo totalitário e dominado pela vigilância tecnológica, a linguagem também é manipulada, sendo criada a “novilíngua”, segundo a qual “nenhuma palavra que não fosse indispensável poderia sobreviver”. Se é através da linguagem que organizamos nossos pensamentos, a manipulação linguística permitia justamente banir o pensamento crítico, a identidade individual e criar uma identidade social totalmente ignorante e passiva, na qual não há espaço para a criatividade nem para a plurissignificação, restando apenas um vocabulário limitado e um forte controle do pensamento. Em meio a esse cenário, a sociedade de Oceania se divide em membros do Partido, os quais detêm o poder, e proles, representantes de 85% da população, considerados inferiores e mantidos miseráveis e ignorantes.

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O governo se divide em quatro Ministérios: o da Verdade, ao qual cabe a tarefa de falsificar os registros históricos; o do Amor, encarregado da repressão e da tortura; o da Fartura, a quem cabe lidar com a fome; o da Paz, encarregado de organizar as ações relativas à guerra. A sociedade vive sob controle extremamente rígido, as cidades são patrulhadas por helicópteros, em todos os lugares há “teletelas”, as quais captam imagens e ruídos, mantendo as pessoas sob vigilância constante. Além disso, há espiões amadores e a Polícia do Pensamento, a quem devem ser denunciados qualquer desvio da ordem vigente. Nessa sociedade, não há espaço para laços afetivos, o casamento é tratado apenas como uma forma de gerar filhos, o que era visto como um dever dos cidadãos para com o Partido. Nesse contexto, “nada existe, exceto um presente sem-fim no qual o Partido sempre tem razão”.O protagonista da obra, Winston Smith, tem como função justamente moldar esse presente, falsificando registros históricos e moldando o passado de acordo com os interesses do Partido. Ao apaixonar-se por Júlia, Winston passa a questionar o regime, mas sabe que combatê-lo efetivamente é tarefa quase impossível. Conforme ele escreve em seu diário, “Crime de pensamento não acarreta morte: crime de pensamento é morte”, assim, ele será interrogado, aprisionado e torturado, conhecendo um outro personagem de destaque na obra, O’Brien, especialista em um método de tortura com ratos, no qual, como ele diz a Winston, “Eles saltarão sobre seu rosto e começarão a devorá-lo. Às vezes atacam primeiro os olhos. Às vezes abrem caminho pelas bochechas e devoram a língua”.

A edição ilustrada de 1984, de George Orwell - Geekness

Nessas condições, Winston acaba perdendo qualquer sentimento de resistência ao regime e é reinserido à massa, amando e obedecendo cegamente ao Grande Irmão. Em meio a uma alienação total, é possível impedir qualquer manifestação de oposição e garantir a permanência plena no poder, combatendo toda ideologia que se oponha ao regime. “1984” mostra, portanto, como em meio a um governo totalitário, marcado pela vigilância constante, pela tortura, pelo terror psicológico, pela doutrinação e pela alienação, o ser humano vai sendo massacrado, ao ponto de formar uma coletividade apática, que já não é mais capaz de compreender a diferença entre o que é certo e errado, positivo e negativo, tampouco de analisar criticamente o que acontece ao seu redor, fazendo com que a epígrafe do livro passe a ser tomada como verdade e a guerra realmente seja vista como o único caminho para se manter a paz, a liberdade seja tratada como uma escravidão e a ignorância como a única força possível, em um lugar em que até mesmo as palavras da língua são controladas e tudo o que resta às pessoas é venerar o Grande Irmão.

A edição ilustrada de 1984, de George Orwell - Geekness

Ilustração – Sheri Gee

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