História do Brasil

A desconhecida história de Santa Dica de Goiás

A mulher, conhecida como fazedora de milagres, chegou a comandar um exército de 400 homens e se tornou uma ameaça para o governo goiano

Nascida em 13 de abril de 1906 na cidade de Lagoa, atualmente Lagolândia, município de Pirenópolis (GO), Benedicta Cypriano Gomes era a filha mais velha de uma família de oito irmãos. Ela ficou conhecida como a menina que ressuscitara, fato que teria acontecido três vezes ao longo de sua vida. No seu nascimento, teria sido declarada morta, pois não havia chorado ao nascer. No entanto, 24 horas depois, ouvia-se o seu choro pela fazenda de Monzodó. Aos dois anos de idade, a menina para de respirar e, após um período de velório, acorda tossindo e expelindo sangue e pus pela boca. A partir daí, as pessoas passam a enxergar em Benedita uma criança especial que teria vindo ao mundo para cumprir uma missão.

Apelidada de Dica, desde menina ela tratava parentes com ervas e rezas. Foi no ano de 1920, porém, que ela passou a ser considerada santa entre os moradores da região, após uma nova “ressurreição”. Na época, foi dada como morta por seus familiares, acordando durante o “banho de defuntos”. Acredita-se que ela tenha sofrido de catalepsia, mas todos os presentes atribuíram o fato a um milagre e, mesmo seus pais, que hesitavam em aceitar os poderes da filha, passaram a acreditar que havia algo diferente na jovem.

A fama de Dica se espalhou, fazendo com que ela ganhasse notoriedade inclusive em outros estados. As pessoas diziam que ela conversava com anjos e, por intermédio deles, curava, profetizava, abençoava e até mesmo casava e batizava aqueles que a procuravam.

Em 1923, aos 18 anos, Santa Dica, como ficou conhecida, decidiu formar uma comunidade a qual passou a ser chamada de Corte dos Anjos. Ali, ela teria distribuído terras entre os fiéis e determinado o uso coletivo tanto da propriedade quanto dos bens nela produzidos.

Cada vez mais o lugar foi sendo tomado pela presença de romeiros e muitas pessoas deixaram para trás os seus empregos para seguir Dica. Estima-se que a Corte dos Anjos chegou a ter 500 moradores.

Durante a passagem da Coluna Prestes por Goiás, em 1925, Santa Dica atendeu ao pedido do governador Brasil Caiado e reuniu um grupo de 400 homens para integrar o Batalhão Patriótico e impedir a entrada dos revoltosos na cidade.

Para treinar seu Batalhão dos Anjos, formado por homens simples e analfabetos, dizem que ela amarrava palha em um dos pés dos homens. Desse modo, ao executar o treinamento da marcha, ao invés de dizer “direita, esquerda”, dizia “pé de paia, pé sem paia”.

Após esse episódio, a visibilidade da comunidade formada por Santa Dica aumentou. A pressão de fazendeiros locais e da igreja foi crescendo, pois era um grande incômodo para todos saber da existência de uma mulher capaz de comandar uma tropa e conquistar tantos fiéis.

Em 1925, o governo resolveu dar um basta na situação, processou Santa Dica e seus auxiliares por atentado à saúde pública. Assim, acontece o “Dia do Fogo”, no qual o povoado foi invadido e os policiais abriram fogo contra os moradores da Corte dos Anjos.       Diante do pequeno número de baixas e do fato de que Dica conseguiu escapar, sua fama de santa tornou-se ainda maior. As pessoas diziam que as balas ficavam presas em seus cabelos ou caiam a seus pés, pois eram desviadas por anjos.

Mesmo tendo conseguido escapar, ela se entregou à polícia e foi condenada a um ano e dois meses de prisão. Acabou passando por um novo julgamento logo depois, sendo inocentada, porém banida de Goiás.

Dica dirigiu-se, então, para o Rio de Janeiro e São Paulo, onde foi retratada pela pintora Tarsila do Amaral e homenageada com um poema de Jorge de Lima. Em 1927, voltou a Lagolândia e refez a sua comunidade. No ano de 1932, a pedido do interventor de Goiás, enviou uma tropa para lutar ao lado das forças legalistas na Revolução Constitucionalista de São Paulo.

Sua influência era mais do que religiosa, Santa Dica foi ganhando cada vez mais influência política, a ponto de seu marido, o jornalista Mário Mendes, ser eleito prefeito de Pirenópolis. Em 1934, ela foi presa mais uma vez e encerrou o movimento, continuou, no entanto, atendendo aqueles que a procuravam até o fim de sua vida, em 9 de novembro de 1970.

Referências:

“Guerra de Santa Dica”. O Estado de S. Paulo, 19 de dezembro de 2010. Disponível em: https://brasil.estadao.com.br/noticias/geral,guerra-da-santa-dica-imp-,655598. Acesso em: 23/01/2020.

GOMES FILHO, Robson Rodrigues.  “O movimento messiânico de ‘Santa Dica’ e a ordem redentorista em Goiás (1923-1925)”. Dissertação de Mestrado. Mariana: Universidade Federal de Ouro Preto, 2012.

GOMES, Filho. “Santa Dica de Goiás: o germinar de um movimento messiânico(1923-1925)”. Revista de História UEG. Anápolis, v.3, n.2, p.128-146, jul./dez. 2014. Disponível em: https://www.revista.ueg.br/index.php/revistahistoria/article/view/2390/2058. Acesso em: 23/01/2020.

CURADO, João Guilherme da Trindade. “Lagolândia – paisagens de festa e de fé: uma comunidade percebida pelas festividades”. Tese de Doutorado. Goiânia: Universidade Federal de Goiás, 2011.

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