Conheça a história da estranha seita brasileira que realizava sacrifício de crianças e cães e praticava poligamia

A doutrina do culto chegou a obrigar as mulheres recém-casadas a passarem a primeira noite com o líder religioso local

A história do Brasil é marcada por diversos movimentos messiânicos espalhados por diferentes regiões do país. Grande parte deles têm em comum o fato de que são formados pela população mais pobre, que encontra na figura de um messias a possibilidade de uma vida melhor, e pela opressão do Estado e das classes sociais mais altas, que veem nesses movimentos uma ameaça à sua hegemonia e à manutenção da ordem vigente.

Dentre esses movimentos, a história do Reino Encantado de Pedra Bonita chama muito a atenção por ser um episódio envolvendo sacrifício humano e que nos mostra até que ponto pessoas que vivem em situação de extrema vulnerabilidade e miséria são capazes de se deixar influenciar por um discurso que prega a salvação.

Conhecido também como “A tragédia da Pedra Bonita”, esse movimento aconteceu em um lugar chamado Pedra Bonita, localizado na Serra Formosa, no município de São José Belmonte, sertão de Pernambuco. Ali, no ano de 1836, chegou João Antônio dos Santos, trazendo consigo duas pequenas pedras brilhantes. Ele dizia que a Pedra Bonita era parte da torre de um castelo e que Dom Sebastião lhe aparecera em sonhos e lhe revelara que havia um tesouro no fundo do lago onde ele teria encontrado as duas pedrinhas. Segundo ele, quando esse tesouro fosse descoberto, Dom Sebastião voltaria e livraria aquele povo sofrido do sertão da miséria na qual se encontravam.

Rapidamente essa história se espalhou, um grande número de sertanejos se mudou para a região e passou a rezar para que Dom Sebastião ressurgisse e os livrasse das dificuldades em que viviam.

A situação incomodou as autoridades locais e um padre foi enviado ao povoado. Ele convenceu João Antônio a parar com as pregações e ir embora do lugar. No entanto, seu cunhado, João Ferreira, proclamou-se rei do Reino Encantado de Pedra Bonita e passou a fazer pregações mais inflamadas e a usar uma coroa feita de cipó.

No reino comandado por João Ferreira, a poligamia era permitida e cabia a ele passar a noite de núpcias com todas as noivas do local. Além disso, quando os fiéis pediam para ver Dom Sebastião e as riquezas que sua chegada lhe trariam, o suposto rei lhes servia uma bebida feita de jurema e manacá, ervas que tinham poder alucinógeno e levavam aqueles homens e mulheres a pensarem que realmente estavam vendo o messias que tanto aguardavam.

João Ferreira passou a afirmar em suas pregações que o retorno de Dom Sebastião estava próximo, mas que, para isso acontecer, era preciso que se fizessem sacrifícios, os quais trariam ao povo dali riquezas e felicidades infinitas. Assim, ele começa a pregar que seria preciso banhar a Pedra Bonita com sangue de pessoas e animais. Tendo cerca de 300 seguidores, o pregador conseguiu convencê-las de que aquele era o único caminho para alcançar a riqueza, o poder e uma vida de glórias e imortalidade. Segundo ele, após os sacrifícios e, com o retorno de Dom Sebastião, todos se transformariam em pessoas ricas, jovens, bonitas e saudáveis.

Foram três dias de sacrifícios que culminaram na morte de mais de 50 pessoas e 14 cães. O pai de João Ferreira ofereceu-se para o primeiro sacrifício, depois dele, foram mortas 30 crianças, 12 homens, onze mulheres e 14 cães. De acordo com ele, todos voltariam à vida e os cães se transformariam em dragões. No entanto, Dom Sebastião não apareceu, então, no quarto dia, o próprio João Ferreira foi sacrificado e seu cunhado assumiu o trono.

Diante do mau cheiro dos cadáveres, eles decidiram mudar o reino para outro local. Porém, no meio do caminho, foram surpreendidos por tropas estaduais e um confronto foi travado entre os sertanejos e os soldados, resultando na morte de mais 22 devotos e no desmantelamento total do grupo.

No dia 18 de maio de 1838, sob o comando do major Manoel Pereira da Silva, o Reino Encantado foi destruído, os sobreviventes foram presos e todos os líderes foram mortos. O que restou do Reino Encantado de Pedra Bonita foi apenas a triste lembrança de uma carnificina movida pela manipulação da fé de pessoas humildes e sem perspectiva. Além disso, grandes obras literárias foram inspiradas nesse episódio, dentre elas, O Reino Encantado” (1878), de Tristão de Alencar Araripe Jr., “Pedra Bonita” (1938), de José Lins do Rego e “Romance d’A Pedra do Reino e o Príncipe do Sangue do Vai-e-Volta” (1971), de Ariano Suassuna.

Referências:

QUEIROZ. Maria Isaura Pereira de. “O messianismo no Brasil e no mundo”. São Paulo: Dominus Editora, 1965.

VALENTE. Waldemar. “Misticismo e região (aspectos do sebastianismo nordestino)”. Recife: Instituto Joaquim Nabuco de Pesquisas Sociais, 1963.

NEGRÃO, Lísias Nogueira. “Sobre os messianismos e milenarismos brasileiros”, in Revista USP, 82. São Paulo, CCS-USP, jun.-jul.-ago./2009.

Imagem: (A imagem é meramente ilustrativa, ela na verdade é um frame retirado do filme “Deus e o Diabo na Terra do Sol”, de Glauber Rocha. O longa conta a história de um casal que se junta a um grupo religioso liderado por “Sebastião”, um beato que representa a cultura messiânica tão comum no nordeste.)

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