“Tem TV e carro como que é índio?”: por que, para o senso comum, indígena é só quem vive no mato?

Conforme diferentes historiadores e antropólogos, entre dois a cinco milhões de indígenas viviam no Brasil antes da chegada do colonizador. Eles foram divididos em tribos de acordo com o tronco linguístico ao qual pertenciam: tupi-guaranis, macro-jê ou tapuias, aruaques e caraíbas. Cada um desses grupos se subdividia em diferentes etnias, constituindo uma imensa diversidade de povos nativos no território.

Com a colonização, milhares de indígenas foram dizimados, tribos inteiras foram extintas e muitas línguas se perderam para sempre. A população indígena atual é muito menor do que aquela encontrada pelos portugueses, mas ainda é marcada por grande diversidade e mais de 200 línguas são faladas no país. Mesmo assim, o que vemos é uma visão bastante estereotipada, como se todos os indígenas fossem iguais e agissem exatamente do mesmo modo que agiam na época da colonização.

O próprio debate em torno do termo “índio” revela essa visão estereotipada. Conforme Gersem Baniwa, o termo índio carrega consigo um sentido bastante pejorativo e é rechaçado por diversas etnias. Ele afirma, entretanto, que muitos indígenas o usam quando acompanhado da etnia à qual pertencem. Ou seja, não há problema em falar  índios Kaingangue, índios Terena, índios Maxacali, pois isso revela o “orgulho de ser o que se é”, mas há problema em falar “índio” como se todos fossem iguais e caracterizados a partir da perspectiva estereotipada que o homem branco lhes atribui.

O Brasil é um país pluriétnico. Segundo dados da FUNAI, temos em território brasileiro cerca de 305 etnias, falantes de mais de 274 línguas. Esses povos estão distribuídos em 12% do território nacional. A maior parte dos brasileiros, no entanto, desconhece essa variedade cultural e reproduz discursos do senso comum ao tratar da questão indígena no país.

Comumente, ouvimos frases do tipo:  “Se usar roupa não é mais índio, é branco! Se tem televisão, rádio e celular é um índio falso! Se tem cara de índio mas fala português, perdeu a cultura!”, como se não fosse permitido aos povos indígenas acompanhar as mudanças que aconteceram ao longo do tempo.

Todas as culturas são dinâmicas e passam por transformações constantes, isso não significa deixar de ser quem se é ou abandonar as suas tradições, significa apenas adaptar-se a uma nova realidade. Essa realidade, entretanto, não deve ser imposta, ela precisa ser fruto das escolhas de cada comunidade.

As populações indígenas se constituem por uma multiplicidade de manifestações culturais, adotam sistemas próprios de educação, produção agrícola, relação com tratamentos medicinais e tantos outros saberes ancestrais. Isso não significa, porém, que não possam ter acesso à tecnologia, frequentar os bancos das universidades, ocupar cargos de poder.

Ao não aceitar que indígenas usem tecnologia e tenham acesso aos bens de consumo, estamos reafirmando a visão colonialista que inferiorizava o indígena, o tratava como o selvagem que precisava ser catequizado e desconsiderava a sua cultura. Não nos faltam relatos de viajantes descrevendo rituais antropofágicos como canibalismo, desconsiderando costumes e crenças e impondo a cultura europeia, como se ela fosse a única possível.

No século XVI, Pero de Magalhães Gandavo dizia que “A Língua Tupi-guarani)… carece de três letras, convém a saber, não se acha nela F, nem L, nem R, cousa digna de espanto porque assim não tem Fé, nem Lei, nem Rei, e desta maneira vivem desordenadamente […]”.  No século XXI, um grande número de brasileiros pensa que o índio deve continuar na floresta, mas acompanha inerte as suas terras serem roubadas por grileiros, os rios serem poluídos por agrotóxicos e a população indígena ser exterminada enquanto luta pela demarcação de suas terras.

Referências:

BANIWA, Gersem. O índio brasileiro: o que você precisa saber sobre os povos indígenas no Brasil de hoje. Brasília, MEC/SECAD/LACED/Museu Nacional, 2006.

https://ufmt.br/povosdobrasil/

SILVA, S. B. DA; VIEIRA, J. G.; FAGETTI, A. REFLORESCER, PERSISTIR E RESISTIR: PRÁTICAS XAMÂNICAS INDÍGENAS NA ATUALIDADE. Vivência: Revista de Antropologia, v. 1, n. 54, 14 maio 2020. Disponível em: https://periodicos.ufrn.br/vivencia/article/view/20870

https://revistas.unila.edu.br/sures/article/view/649/0

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