A triste história do Homem-Gabiru: família que foi considerada pela imprensa como sub-raça

Um Pernambucano e sua família que, em decorrência da fome e da falta de proteína na alimentação, possuía apenas 1,35 de altura, aos 47 anos de idade

A trajetória desse homem mostrou ao Brasil as terríveis consequências da geografia da fome em nosso país

Em seu poema “O bicho”, Manuel Bandeira expressa a perplexidade de constatar que aquele ser que revirava o lixo “catando comida entre os detritos”, não era um cão, / Não era um gato, / Não era um rato”, era um homem. Infelizmente, a desumanização provocada pela miséria extrema não é apenas um recurso literário, ela está estampada diariamente nos mais diversos cantos do país. Vivendo na penúria, milhares de brasileiros têm sua humanidade violada e enfrentam a dura tarefa de sobreviver sem sequer garantir uma refeição diária. 

Essa miséria que assola o país produz uma infinidade de histórias tristes como a do “homem-gabiru”, que se tornou conhecido após a publicação de uma matéria escrita por Xico Sá, na Folha de São Paulo, em 19 de novembro de 1991. A partir da história de Amaro José da Silva, morador de Engenho Bondade, Pernambuco, o Brasil conheceu o homem-gabiru, definido por muitos como uma “sub-raça”. Na época, Amaro tinha 47 anos e media 1,35 m. Vivendo em situação de pobreza extrema desde o seu nascimento, a matéria dizia que ele representava o surgimento de uma nova espécie.

Gabiru é o nome dado a ratos que vivem nos esgotos das cidades, assim, essa caracterização remete ao fato de que o lixo, muitas vezes, era o único caminho para saciar a fome dessas pessoas, aproximando-as de um bicho.

Em entrevista à revista Veja, Amaro José afirmou que já comera muito rato do mato para sobreviver. Pai de 13 filhos, ele diz, ainda que “Tem dia que a gente não sabe se vai comer ou não. Eu e a mulher damos primeiro para as crianças”. Sem comida e sem qualquer perspectiva de uma vida melhor, Amaro representa os muitos miseráveis que, como diz João Cabral de Melo Neto, morrem “de fome um pouco por dia”.

Conforme alguns estudiosos da obra de Josué de Castro, um dos maiores nomes no estudo da fome no Brasil, o homem-gabiru seria uma adaptação do homem-caranguejo descrito por Castro. Representaria justamente esse homem que saiu do mangue e foi viver em morros, em casebres, e agora sofre até mesmo a privação do caranguejo como alimento, restando-lhe apenas o lixo, os restos que já não servem a ninguém, mas que se tornam a única alternativa para não morrer de fome.

 A miséria produz a animalização, leva à morte em vida, a tal ponto que essas pessoas passam a ser vistas como uma sub-raça, uma nova espécie produzida pela desnutrição extrema, cujos direitos básicos foram negados e cuja alcunha indica um processo de naturalização dessa miséria, como se tratá-los como uma nova raça fosse mais simples que oferecer condições dignas de vida para que elas não tivessem até mesmo sua estatura física comprometida por causa da falta de alimentos básicos em sua dieta.  

Em matéria publicada na revista Veja, em 23 de setembro de 1998, a tese de uma sub-raça foi desmentida. Ao visitar novamente a família de Amaro José, a equipe da revista constatou que Jones, o primeiro filho de Amaro, media 1,69 m. Tendo condições de vida um pouco melhores que a do pai, as quais lhe garantiram a alimentação diária, mesmo que isso significasse a fome de seus genitores, Jones não teve seu desenvolvimento comprometido e alcançou a estatura esperada para um jovem de sua idade, confirmando que as características físicas do pai não eram fruto de uma modificação da raça, mas, sim, da condição de subnutrição que marcou toda a sua vida. A falta total de cidadania e de acesso a elementos básicos de sobrevivência foi o que gerou a baixa estatura de Amaro e deu a ele o título de homem-gabiru, justamente porque ele viveu como um rato, caçando comida entre os detritos e tentando sobreviver em meio à miséria que marcou toda a sua existência. 

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Referências:

CASTRO, Josué de. “Homens e caranguejos”. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2007.

MELO FILHO, D. A. de. “Mangue, homens e caranguejos em Josué de Castro: significados e ressonâncias”. História, Ciências, Saúde – Manguinhos, Rio de Janeiro, v.10, n.2, maio-ago. 2003

PORTELLA, Tarciana. “Homem-gabiru: catalogação de uma espécie”. São Paulo: Hucitec, 1992.

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