Cinemas fechados, igrejas abertas

Os fenômenos da elitização do cinema e democratização religiosa, a partir da substituição de cinemas por igrejas, nos centros das cidades e bairros

Foto mostra o Cine Carioca, na Tijuca, que virou igreja. O Rio de Janeiro já teve cerca de 200 cinemas de rua nos anos 70, hoje conta com apenas 16

Muitos de vocês, certamente, já passaram em frente a um antigo cinema, no centro da cidade, e observaram que os letreiros foram alterados para o nome de alguma congregação religiosa.

Essa metamorfose não aconteceu do nada.
O cinema de centro era um meio de interação social, democrático que, aos poucos, foi sendo substituído pelas igrejas, sobretudo neopentecostais.

Até meados dos anos 80, era muito comum, entre os brasileiros, frequentar as salas escuras dentro desses recintos, geralmente localizados nos centros das grandes cidades.

Quando a onda de expansão dos Shoppings Centers chegou ao Brasil, no início dos anos 80, seguidos da facilitação ao acesso a televisores e aparelhos de videocassetes, os cinemas passaram a migrar para esses centros de compras e alterar significativamente o público alvo que, até o período em questão, era focado nas pessoas mais humildes.

A migração dos cinemas para os shoppings, a princípio, pode não parecer uma alteração tão significativa. Mas, em meados dos anos 80, com a forte crise econômica e a recessão que assombravam o país, as classes mais pobres ficaram inviabilizadas de frequentar os centros de compras que, na maioria das vezes, eram muito afastados das periferias da cidade, se localizando à beira de grandes rodovias, onde era mais fácil chegar de automóvel.

Foi ao longo dessa década, que os novos cultos neopentecostais, representados por instituições como a Igreja Universal do Reino de Deus, passaram a adquirir esses cinemas, pois a configuração estrutural desses prédios iam ao encontro das necessidades das congregações. As salas, cheias de cadeiras para abrigar os fiéis e a parte onde ficava a tela, que possuía um palco que caía como uma luva para a colocação de um púlpito, contribuíam para que não fossem necessárias muitas obras. Em um cenário como esse, bastava a igreja alugar o prédio, mudar o letreiro da fachada, e colocá-lo para funcionar no outro dia.

E durante anos foi dessa forma: um cinema fechava as portas e, na outra semana, uma igreja abria no mesmo local.

Tais fatores contribuíram para a construção de dois fenômenos importantes para entender o Brasil atual: o da elitização do cinema e a democratização das igrejas evangélicas.
Ao longo dos anos 90, com o plano Real, a estabilização econômica e o aumento significativo do poder de compra, no início dos anos 2000, o Shopping Center quebrou de vez os cinemas centrais, e as igrejas neopentecostais ocuparam quase todos os recintos que antes eram usados para reprodução de filmes.

As atividades culturais e interações sociais que antes eram vivenciadas nas salas de cinemas continuaram ocorrendo, mas agora permeadas pelos cultos religiosos.

Foto: internet/reprodução

Realmente o cinema de shopping ficou muito caro.
Antigamente, os ingressos tinham preços mais modestos e não havia outras tentações de consumo próximas, a não ser o pipoqueiro e o vendedor de churros, que ficavam na praça em frente ao cinema. Atualmente, levar a família ao shopping consome uma quantidade significativa de dinheiro.
Grana de que pouca gente dispõe, em um país desigual como o Brasil.

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