“Pedagogia do oprimido”: a educação como prática libertadora

Escrito em 1968 e publicado em 1970, “Pedagogia do oprimido” é um dos principais livros de Paulo Freire, sendo a terceira obra mais citada em trabalhos de ciências humanas do mundo, traduzida e publicada em mais de 20 idiomas.

Produzido durante um período de extrema repressão que levou Freire ao exílio, “Pedagogia do oprimido” é um marco do pensamento freireano e traduz os principais ideais que norteiam a sua visão de educação.

Dedicado “(a)os esfarrapados do mundo e aos que neles se descobrem e, assim, descobrindo-se, como eles sofrem, mas, sobretudo, como eles lutam”, o livro traz o cerne da teoria de Paulo Freire que vê a educação como uma importante ferramenta de combate à opressão e que a pensa como um processo que deve estar ancorado na realidade do próprio aluno.

Muito se fala no “Método Paulo Freire”, a partir de seu trabalho de alfabetização de adultos desenvolvido em uma comunidade rural de Angicos, no Rio Grande do Norte. É importante, dizer, entretanto, que esse método nunca foi implantado em larga escala no país, já que o trabalho de Freire foi interrompido pela ditadura militar. Além disso, o educador afirmou diversas vezes que erradicar o analfabetismo no Brasil não era uma questão de método, mas de vontade política.

Para Paulo Freire, a educação é uma ferramenta para a emancipação individual e social, construída dialeticamente. Desse modo, alunos aprendem com os professores e professores aprendem com os alunos, num processo de comunhão, em que ambos têm algo a ensinar e algo a aprender. Os alunos não adentram os muros da escola sem saberem nada. Os professores não sabem tudo. O processo educativo se dá através do compartilhamento do conhecimento, da construção coletiva dos saberes.

Esse processo educativo acontece mediado pelo mundo, ou seja, o contexto histórico, político e social interfere na educação. A própria educação é um ato político, não no sentido reducionista de partidarismo, mas em sua acepção original defendida na Grécia Antiga, segundo a qual, a política era o modo como coletivamente se organizava a vida na polis.

Defendendo uma educação libertadora, Freire pensava a educação como um ato de intervenção no mundo. Em um mundo desigual, era preciso que a educação promovesse a convivência entre desiguais e diferentes. Isso levaria a uma postura crítica diante do mundo e à transformação desse mundo. Essa transformação ocorreria pela superação do “não ser” e pela construção do “ser mais”. Sendo assim, o oprimido encontraria a sua voz e o seu espaço no mundo.

A libertação deve ser o foco de qualquer processo educativo e, para que ela ocorra, é preciso que haja um diálogo democrático. Educação e autoritarismo não combinam, o processo educativo deve ser construído coletivamente, de modo dialógico, considerando a voz do educador e do educando.

A educação do oprimido não é produzida “para ele”, mas “com ele”, reconhecendo o seu papel de sujeito do seu próprio conhecimento, como um ser capaz de lutar para que a sua humanidade possa ser enxergada e os seus sonhos possam ser alcançados.

Uma educação libertadora é uma educação democrática, capaz de formar para e pela cidadania. Esse processo nunca se esgota, como seres inacabados que somos, o processo educativo está em constante construção, a pesquisa, a curiosidade e a investigação movem o ser humano e podem ocorrer tanto em ambientes formais de ensino, quanto em espaços populares, nos quais a educação se dá através das experiências vividas.

A leitura do mundo precede a leitura da palavra. Para ler o mundo, é preciso ver a sua realidade, ter consciência das estruturas sociais que moldam esse mundo e ter esperança de que é possível transformá-lo. Freire alerta, entretanto, que ter esperança não significa esperar passivamente pela concretização dos sonhos. Para ele, esperança vem do verbo esperançar, que significa lutar por aquilo que se quer, buscar aquilo em que se acredita, transformar a utopia em realidade.

Ao educador, cabe abandonar a “educação bancária”, que vê o aluno como uma caixinha vazia na qual se deposita o conhecimento, e enxergar o estudante como um sujeito de seu próprio processo educativo. Temos, assim, uma práxis libertadora, que levará à humanização e ao diálogo.

Educar é um ato afetivo, de amorosidade, que revela um compromisso com o outro e deve estar pautado na solidariedade, na humildade no respeito ao próximo, movido pela ética e pela consciência de que todos têm conhecimento, mesmo que eles sejam diferentes.

Uma educação libertadora é aquela que proporciona aos educadores e educandos um conhecimento para a vida, formando sujeitos históricos, autônomos, éticos e capazes de mudar a realidade em que vivem, construindo uma sociedade justa, igualitária e humana.

Referências:

FREIRE, Paulo. Pedagogia do oprimido. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1968.

FREIRE, Paulo. Pedagogia da esperança: um reencontro com a Pedagogia do oprimido. São Paulo: Cortez, 1992.

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