O estudo da sífilis não tratada de Tuskegee – o episódio usado como principal exemplo de má conduta médica da história moderna

Entre os anos de 1932 e 1972, o Serviço de Saúde Pública dos Estados Unidos realizou uma pesquisa com 600 homens negros da cidade de Macon, no estado do Alabama. Eles foram divididos em dois grupos: 399 deles eram portadores de sífilis e 201 não tinham a doença.

Conhecido como “Estudo Tuskegee”, nome do centro de saúde onde foi realizado o estudo, o projeto tinha o objetivo de observar como a doença evoluía sem que fosse aplicado qualquer tratamento aos seus portadores.

Os participantes não foram informados de que tinham sífilis e não sabiam quais eram os efeitos da doença. Eles apenas receberam a informação de que tinham “sangue ruim” e, por isso, receberiam acompanhamento médico, uma refeição no dia dos exames e, caso necessário, o pagamento das despesas com o seu funeral.

Na época em que teve início o projeto, não havia um tratamento comprovado para sífilis, entretanto, o maior problema do experimento era omitir o diagnóstico dos envolvidos na pesquisa e não mencionar o que se esperava alcançar como resultado final.

A partir de 1940, a penicilina passou a ser usada como principal tratamento para sífilis, mas os participantes do experimento continuaram sem receber qualquer tipo de tratamento. Além disso, todas as instituições de saúde do país foram notificadas de que não deveriam fornecer tratamento a nenhum dos participantes da pesquisa.

Artigos científicos e apresentações em congresso mostravam os resultados da experiência científica e afirmavam que homens com sífilis morriam muito mais rápido que os infectados. Suas famílias, porém, não recebiam a informação da causa da morte e seguiam achando que esses homens estavam sendo devidamente tratados do “sangue ruim”.

Ao longo de toda a pesquisa, não houve qualquer tentativa de desenvolver novas formas de tratamento, o objetivo era apenas observar a evolução da sífilis não tratada, sem qualquer preocupação com os pacientes que nunca foram informados do seu real problema de saúde.

Apenas em 25 de julho de 1972, uma reportagem do Washington Evening Star denunciou o que estava acontecendo. A matéria foi escrita pela repórter Jean Heller, da agência de notícias Associated Press e teve repercussão em todos os grandes jornais norte-americanos.

A reportagem apontava que os participantes da pesquisa eram homens negros, pobres e analfabetos e que eles teriam concordado em participar por causa dos benefícios que lhes foram oferecidos. No entanto, nenhum deles foi informado de sua real condição de saúde nem de qual era o objetivo do experimento científico.

Quando essa publicação veio à tona, apenas 74 participantes estavam vivos e todos desconheciam o que estava acontecendo. Em 1997, quando o então presidente americano, Bill Clinton, decidiu desculpar-se pela pesquisa, apenas 7 participantes ainda estavam vivos. Segundo o advogado que representava os sobreviventes do experimento científico, eles foram usados como cobaias humanas, não deram o consentimento para o que fizeram com eles e desconheciam o perigo que corriam.

O Estudo Tuskegee abriu uma ampla discussão sobre ética científica. Realizado por pesquisadores renomados, com o aval de órgãos governamentais e legitimados por publicações científicas e congressos acadêmicos, ninguém colocou em questão a metodologia utilizada na condução do experimento e as suas consequências. Homens pobres e doentes perderam a vida sem qualquer chance de receber um tratamento adequado. Morreram ignorando a doença que os acometia e sem saber que foram usados como cobaias humanas em prol de uma pesquisa que violou a ética científica.

Referências:

Jones JH. Bad blood: the Tuskegee syphilis experiment. New York: Free, 1993:1-11.

Vieira S, Hossne WS. Experimentação com seres humanos. São Paulo: Moderna, 1987:47.

https://www.ufrgs.br/bioetica/tueke2.htm

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