A história dos internatos canadenses e do horror praticado contra crianças indígenas

Entre os anos de 1863 a 1998, no Canadá, mais de 150 mil crianças indígenas foram arrancadas de suas famílias e levadas para internatos, onde se viram obrigadas a abandonarem a sua língua nativa e a deixarem de lado a cultura de seu povo.

Esses internatos eram administrados pelo governo canadense e, em sua maior parte, operados pela Igreja Católica. O objetivo dessas instituições era promover a assimilação cultural dos povos indígenas, mas o que ocorria ali era um crime muito mais grave do que esse.

As crianças indígenas eram vítimas de todo tipo de abuso. O primeiro deles acontecia quando as arrancavam à força dos braços de suas famílias. Depois, vinha uma sucessão de violações dos seus direitos. Os alojamentos eram precários, o aquecimento era ruim e as condições do lugar, insalubres. Além disso, nesses internatos, meninos e meninas sofriam maus tratos, eram vítimas de abusos físicos e sexuais, que, em muitos casos, custaram-lhes a vida.

Conforme a Comissão de Verdade e Reconciliação, cerca de seis mil crianças morreram nesses internatos. Os corpos das vítimas dificilmente voltavam para as suas famílias, muitas foram enterradas em valas sem qualquer tipo de identificação.

Quem sobreviveu ao horror vivido nesses locais, carrega consigo os traumas provocados pelos abusos emocionais, físicos e sexuais que enfrentaram.

Esse triste episódio da história do Canadá foi retratado na pintura “The Scream” do artista canadense da etnia cree Kent Monkman. Produzida em 2017, a obra mostra mães sendo detidas pela Real Polícia Montada do Canadá, enquanto tentam pegar os filhos que lhes são arrancados dos braços por freiras e padres católicos.

“The Scream”, de Kent Monkman

Conhecida como “Alcatraz do Canadá”, a Escola Industrial da Ilha Kuper, localizada na província de Colúmbia Britânica foi uma dessas instituições que abrigou crianças indígenas e onde diversos abusos foram cometidos. No dia 13 de julho de 2021, cerca de 160 sepulturas foram encontradas no local onde funcionava a escola, fazendo com que a discussão sobre o horror cometido nesses internatos ganhasse visibilidade novamente.

Fundada em 1889, a escola ficava em uma ilha isolada e era praticamente impossível escapar dali. Em 1959, duas irmãs morreram afogadas em uma tentativa de fuga. O nome delas faz parte de uma lista de 120 crianças que morreram na Ilha Kuper.   

A política canadense de “integração” das crianças indígenas à cultura branca trouxe consequências nefastas para essa população, gerando traumas que permanecem muito fortes entre a população indígena.

Escola Industrial da Ilha Kuper

Hoje, movimentos indígenas lutam para encontrar os corpos das crianças desaparecidas nesses internatos e para que o governo e a Igreja Católica reconheçam o genocídio que foi operado em nome da assimilação cultural que foi pregada por mais de oito décadas.
Usurpadas de suas famílias, essas crianças eram obrigadas a falarem uma língua que desconheciam e incentivadas a acreditarem que tudo que vinha da sua cultura nativa era errado e pecaminoso.

Estimativas apontam que 6.000 crianças morreram nesses internatos. 4.100 já foram identificadas. Com os novos túmulos recém-descobertos, há a possibilidade de que esses números sejam ainda bem maiores e que muitas outras atrocidades ainda venham à tona.

Escola Kamloops

Em 1980, a Escola Industrial da Ilha Kuper foi derrubada, mas o horror ali vivido permanece bem vivo na memória de quem passou pela instituição. Isolados na ilha, separados de suas famílias, sequestrados de seus costumes, meninos e meninas indígenas perdiam a sua individualidade, eram tratados por números e proibidos de manterem laços afetivos com irmãos, primos e conhecidos.

Sobreviventes da Ilha Kuper lembram com horror dos abusos sexuais cometidos no internato. Principalmente nos fins de semana, religiosos apareciam com um apito e gritavam um número. A criança escolhida era levada para o quarto do religioso e ali era abusada sexualmente. As memórias do horror vivido fizeram com que muitos ex-alunos ficassem com problemas emocionais, sofrendo, por exemplo, com o alcoolismo e a depressão.  

Conforme a Comissão da Verdade e da Reconciliação do Canadá, 1 em cada 50 crianças morreu nesses internatos. Mesmo reconhecendo os abusos cometidos, o governo canadense não se mobilizou na busca dos restos mortais das crianças desaparecidas. Essa tarefa tem sido realizada por grupos de indígenas que lutam por uma reparação dos abusos sofridos e pedem que o Vaticano peça perdão pelas atrocidades que vitimaram essas crianças.

Referências:

https://brasil.elpais.com/internacional/2021-07-01/comocao-no-canada-apos-pais-chegar-a-1100-restos-mortais-localizados-onde-havia-um-internato-de-criancas-indigenas.html

https://www.correiobraziliense.com.br/mundo/2021/06/4933580-canada-751-tumbas-sao-descobertas-em-internato-indigena.html

https://www.bbc.com/portuguese/internacional-57379972

https://www.bbc.com/portuguese/geral-58021143

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