Anarcha: a mulher negra que foi cobaia das primeiras experiências ginecológicas

Até hoje, muitas mulheres sentem-se desconfortáveis ao fazerem certos exames ginecológicos. Casos de abusos cometidos em consultórios ou de violência obstétrica são mais comuns do que imaginamos. E foi justamente a partir de procedimentos médicos violentos que nasceu a ginecologia moderna.

Considerado o pai da ginecologia moderna, James Marion Sims desenvolveu uma série de intervenções cirúrgicas em mulheres escravizadas e notabilizou-se por desenvolver uma técnica cirúrgica para correção de fístulas vesicovaginais e retrovaginais, que são conexões anormais entre a bexiga, a vagina e o reto.

Ele começou a desenvolver seus procedimentos cirúrgicos em 1845 e a sua principal cobaia foi Anarcha Westcott, uma jovem escravizada de 17 anos, que vivia no Alabama.

Anarcha sofria de raquitismo e, por isso, tinha a sua pélvis desfigurada. Em 1849, ela ficou por três dias sofrendo a dor de um parto extremamente difícil em função de sua condição de saúde. O médico James Marion Sims entrou em cena para ajudá-la, mas, na verdade, a jovem se tornaria uma cobaia de seus experimentos ginecológicos.

Sims acreditava que os negros sentiam menos dor, por isso, não hesitou em submeter Anarcha a 30 procedimentos cirúrgicos sem uso de anestesia.

A jovem conseguiu ter o seu filho, porém foi submetida a uma dor extrema para que o médico desenvolvesse a sua técnica. Além disso, enfrentou muitas dores e sangramento na vagina e no reto, após a cirurgia. Isso serviu de deixa para que Sims continuasse a desenvolver as suas técnicas cirúrgicas, torturando Anarcha com uma série de outros procedimentos.

Além de Anarcha, dezenas de outras mulheres escravizadas passaram por suas mãos, todas foram vítimas de cirurgias sem anestesia, muitas delas morreram. E foi graças à dor dessas mulheres, tratadas como meras cobaias, que o médico aperfeiçoou a sua técnica de correção da fístula vesicovaginal.

Depois de torturar diversas mulheres negras, o médico passou a realizar a cirurgia em mulheres brancas, nessas, no entanto, ele passou a usar anestesia.

A falta de ética de suas técnicas foi ignorada durante longo tempo e ele ganhou o título de pai da ginecologia moderna, sendo homenageado com uma estátua no Central Park, em Nova York. Em 2018, a estátua foi removida e, em seu lugar, foi colocada uma placa informando sobre a crueldade dos experimentos praticados por Sims e apresentando as histórias de Lucy, Betsey e Anarcha, três das mulheres escravizadas que serviram de cobaias para que o médico desenvolvesse as suas técnicas.

Nos relatórios dos experimentos que realizava, James Marion Sims falava que as mulheres escravizadas choravam de dor durante as cirurgias, admitia que elas poderiam morrer na mesa de operação, entretanto, sua ânsia por se tornar o pioneiro dessa técnica ginecológica era muito maior que qualquer princípio ético, levando-o a ignorar a extrema dor que as mulheres sentiam e a continuar os seus procedimentos sob a alegação de que não havia a necessidade de anestesia, já que as mulheres negras eram mais resistentes à dor do que as brancas. Ainda hoje, essa visão equivocada deixa seus lastros. Segundo relatório publicado em 2017 pela Fiocruz, é duas vezes maior a probabilidade de uma mulher negra não receber anestesia ao passar por uma episiotomia durante o parto.

Referências:

https://aventurasnahistoria.uol.com.br/noticias/reportagem/anarcha-westcott-a-mulher-negra-que-foi-cobaia-de-30-procedimentos-cirurgicos-sem-anestesia.phtml?fbclid=IwAR1n2feZKmHLZ3m5vfqIX8TLiQN6sMD2HQMpzC6VVlHFFjNb27S2DodcvtQ

https://www.publico.pt/2018/04/20/mundo/noticia/estatua-do-pai-da-ginecologia-moderna-retirada-do-central-park-1811113?fbclid=IwAR3yyZ5VZwUaA8L2u5bXATbK3fKqIK3b-DsQrKXP-n6NiE6jSO73Q0teqUc

https://www.scientificamerican.com/article/james-marion-sims-m-d-l-l-d/

https://www.nexojornal.com.br/expresso/2016/12/03/Anarcha-Lucy-e-Betsy-as-escravas-m%C3%A3es-da-ginecologia-moderna?fbclid=IwAR0IxC13-K_IrDD559478tqh2llDAaQZPrZkAuk8k0Pm5WEFyaKGTEN73qo

https://revistagalileu.globo.com/Sociedade/noticia/2020/06/como-ciencia-contribuiu-com-machismo-e-racismo-ao-longo-da-historia.html?fbclid=IwAR2AudLpit9rLuQNWO4ck_hPwHdRtXNAODMccZl-ScYZS7-7Nvswg6MIYnU

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