A bela e trágica trajetória de Elena Mukhina, a ginasta que, ao ficar tetraplégica, fez o mundo repensar a pressão sobre atletas de alto rendimento.

Durante o período conhecido como Guerra Fria, em que Estados Unidos e União Soviética disputavam influência ideológica, econômica e bélica pelo mundo, os esportes não escaparam dessa lógica. 

Os Jogos Olímpicos eram um palco de disputas entre as duas nações e os dois modelos de produção. Atletas dos dois países sofriam grandes pressões para a vitória. Os Estados Unidos, por exemplo, reinavam no basquete e no atletismo, enquanto a União Soviética ia muito bem nos esportes aquáticos e na ginástica. 

 Foi nesse ambiente que surgiu Elena Mukhina, jovem que, na época, treinava e era formada pela URSS para desbancar a fenomenal Nadia Comaneti.

Mukhina era exposta a um treinamento duro de até 16 horas por dia, sem descanso aos finais de semana. Além de tudo, era pressionada por comissários políticos e membros das Forças Armadas Russa. O trabalho deu resultados, pois no mundial de Estrasburgo, em 1978, Elena levou nada mais, nada menos que cinco medalhas, três delas de ouro. Além dessas conquistas, a ginasta inseriu mais quatro novos movimentos no esporte. 

Com esse desempenho excelente no campeonato mundial, Elena passou a intensificar os treinos para os Jogos Olímpicos. A atleta novamente passa a sofrer pressões terríveis do sistema soviético. A federação esportiva passou a usar a ginasta como foco da propaganda do regime. Em determinado momento, a pressão sobre o rendimento da atleta ficou tão alta que ela praticamente não descansava. A ginasta, então, machucou a perna em uma competição e, ainda não recuperada, foi pressionada pelo seu treinador a intensificar as acrobacias do salto, para se preparar para as Olimpíadas e conseguir criar novos movimentos e atingir a nota máxima. Com o grande cansaço e ainda não recuperada da lesão, Elena acabou sofrendo um terrível acidente. 

Em um dia de treino, ao tentar uma acrobacia arriscada (um mortal próximo do chão), ela caiu e torceu o pescoço, o impacto quebrou duas vértebras de sua coluna e ela ficou tetraplégica. A tragédia ocorreu há poucas semanas dos Jogos Olímpicos de Moscou, em 1980. A União Soviética havia prometido ser esta a maior das Olimpíadas e o trágico acidente poderia abalar os seus planos.

Doente e abandonada pela Federação Soviética de Ginástica, Elena voltou a morar com a avó e passou bastante dificuldade para conseguir se recuperar. Esquecida por boa parte da população no período, sua história foi resgatada quando, após a queda da União Soviética, ela reapareceu em um jornal russo para contar sua história. A população  se assustou, boa parte dos russos não sabia que Elena estava viva ou que tinha ficado tetraplégica. Na época, o Regime da URSS declarou que a atleta não havia se curado da grave contusão anterior. 

Depressiva, se sentindo abandonada e com sérias dificuldades para se manter. Elena faleceu aos 45 anos de idade, amargando o triste estigma de se sentir culpada pela decepção de uma nação, ao se machucar em uma rotina desumana de treino. 

Antes de morrer, em uma entrevista, a atleta disse que se culpava pelo acidente. Porém, muitos especialistas saíram em sua defesa, dizendo que a pressão colocada em seus ombros, ainda adolescentes, causou um impacto psicológico e emocional criminoso, que levou a atleta a tentar realizar coisas, que colocaram sua saúde em risco.

Referências:

https://www.clarin.com/deportes/elena-mukhina-gimnasta-quedo-cuadriplejica-20-anos-presionada-limite-vencer-nadia-comaneci_0_3CMG2mA6i.html

https://elpais.com/diario/1978/10/29/deportes/278463623_850215.html

https://www.uol.com.br/esporte/outros/ultimas/2006/12/25/ult33u60468.jhtm

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