Operação Camanducaia: tortura, abandono e morte. A tentativa da Ditadura de sumir com menores infratores

Conheça a história da Operação Camanducaia, caso criminoso, executado por policiais, que trouxe a tona o cruel e violento tratamento dado, pelo Estado brasileiro, a menores infratores

No dia 21 de outubro de 1974, o Departamento Estadual de Investigações Criminais (DEIC) de São Paulo prendeu e torturou 93 meninos entre 11 e 17 anos e os abandonou na beira da rodovia Fernão Dias, próximo à Camanducaia, em Minas Gerais.


A ação, que ficou conhecida como Operação Camanducaia, tinha o objetivo de “limpar” as ruas de São Paulo da presença de menores delinquentes. Não havia uma acusação formal contra os meninos, todos eram oriundos de famílias muito pobres, alguns viviam nas ruas de São Paulo e eram vistos por muita gente como “resíduos humanos”, que deveriam ser retirados da capital paulista.


Assim, os garotos foram presos, colocados dentro de um ônibus e torturados. Chegando nas proximidades de Camanducaia, eles foram obrigados a tirarem as roupas e correram pelo mato, enquanto fugiam dos tiros disparados pelos policiais. Ao chegarem em Camanducaia, nus, feridos e com frio, eles deixaram as pessoas que ali viviam chocadas com a cena e foram levados de volta a São Paulo três dias depois.
Embora a operação fosse claramente marcada por ilegalidades e violações de direitos, as investigações judiciais nunca foram concluídas. Mesmo havendo denúncia contra 14 delegados e 7 policiais, o caso acabou sendo arquivado e ninguém foi punido.


O episódio deu origem ao livro “Infância dos mortos”, de José Louzeiro, que, na época, era repórter do jornal Folha de S. Paulo. Ele foi até Camanducaia fazer a cobertura do caso, escreveu uma matéria de oito laudas sobre o assunto, mas acabou tendo seu texto censurado e sendo impresso no jornal com apenas 64 linhas.

Tratados como dejetos humanos, os menores abandonados eram vistos como delinquentes perigosos, que deveriam ser banidos do centro de São Paulo. Diante das queixas constantes dos paulistanos, o governo autorizou uma operação de limpeza das ruas. Cerca de 300 garotos foram levados ao DEIC, sem qualquer acompanhamento do Juizado de Menores ou apresentando alguma acusação formal de crime. 93 desses meninos foram levados no meio da noite para um ônibus e acompanhados por 13 policiais, que levavam consigo cães, metralhadoras, revólveres, cassetetes e pedaços de paus com pregos na ponta. Quatro desses policiais seguiam na frente com um opala, cinco vigiavam os garotos dentro do ônibus e os outros quatro seguiam atrás em uma Kombi.


Espremidos dentro do ônibus e sem qualquer informação sobre para onde iriam, os garotos seguiam tomados de medo, o que aumentou mais ainda quando chegaram ao destino final e se viram obrigados a despirem-se e correrem de cães, tiros e pontapés.


Tomados de pânico, os meninos corriam pela mata, em meio a uma chuva e sem saber o que fazer. Os que conseguiram resistir, foram se agrupando e chegaram à cidade de Camanducaia, com frio, completamente nus e bastante feridos.

Ao chegarem ao posto de serviços “Cometa”, os garotos escandalizaram as pessoas que estavam em um restaurante de lá. O delegado de Camanducaia saiu pela cidade acompanhado de um PM e conseguiu recolher 42 dos meninos na delegacia da cidade. As “meninas da Elise”, mulheres que trabalhavam em uma das dez casas de prostituição de Elizena Mendes Azevedo, saíram arrecadando roupas e alimentos para os meninos e a própria Elizena preparou uma refeição para eles. Segundo o delegado, a nudez dos garotos fez com que ficassem muito inibidos e isso salvou a cidade de uma tragédia.

O delegado acompanhou pessoalmente a recondução dos meninos a São Paulo e disse entender que as grandes cidades tentassem se livrar de seus menores infratores, mas, segundo ele, não seria possível permitir que Camanducaia “se transformasse num viveiro de pequenos marginais”.

O Juizado de Menores constatou que os garotos não tinham antecedentes criminais e, alguns deles, inclusive, trabalhavam e tinham residência fixa, não havia nenhum motivo para que fossem apreendidos pelo DEIC. Muitos ficaram presos durante um período muito maior do que o permitido por lei, alguns disseram terem sido espancados por policiais para confessaram os crimes dos quais eram acusados.


A operação Camanducaia explicitou como São Paulo não era capaz de tratar com seriedade a questão do menor e causou repúdio em diversos setores da sociedade. Conforme a versão oficial, toda a ação partiu do DEIC e os meninos foram levados para outra cidade, pois não residiam na capital. Os policiais teriam agido a partir da ordem de limpar a cidade dos trombadinhas, por isso, decidiram devolvê-los às suas cidades de origem. Ao chegarem próximo a Camanducaia, um pneu do ônibus teria furado e os garotos teriam começado uma rebelião e fugido pela mata.

O Secretário de Segurança disse que a ação ocorreu por um “excesso de zelo” do DEIC, que buscava livrar a cidade dos infratores, o fato é que ninguém foi capaz de apresentar uma resposta que justificasse a ação. No entanto, como comumente acontece no Brasil, não houve nenhuma punição dos responsáveis e toda a arbitrariedade acabou sendo naturalizada a partir das afirmações de que os garotos eram meninos de rua, delinquentes, lixos que deveriam ser retirados das ruas da cidade.

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Referências

FRONTANA, Isabel. Crianças e Adolescentes: nas ruas de São Paulo. São Paulo: Edições Loyola, 1999.
LOUREIRO, José. A infância dos mortos (Pixote). São Paulo: Abril Cultural, 1984
http://www.mpgo.mp.br/portalweb/hp/41/docs/direito_a_memoria_e_a_verdade_-_historia_de_meninos_e_meninas_marcados_pela_ditadura.pdf

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