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O Motim de Camp Logan: os soldados negros enforcados por se oporem ao racismo

Na história do Estados Unidos, diversos foram os momentos de segregação racial e de distúrbios provocados por causa dessa segregação. No final do século XIX e início do século XX, em diversos estados do Sul, vigoravam as leis Jim Crow, que impunham uma série de restrições à população negra.

Nessa época, em muitas cidades americanas, negros e brancos não podiam andar juntos no mesmo veículo de transporte coletivo, não podiam beber no mesmo bebedouro, estudar na mesma sala de aula ou comer no mesmo restaurante. Apesar da Constituição dizer que todos eram iguais perante a lei, a segregação racial fazia com que as pessoas fossem tratadas de modo desigual.

Nesse contexto, um grupo de soldados afro-americanos do 3º Batalhão da 24ª Infantaria dos Estados Unidos organizou uma revolta contra os abusos cometidos pela polícia e pela população branca de Houston, no Texas.

Conhecido como Motim de Camp Logan ou Tumulto de Houston, o episódio mostra o descontentamento dos soldados pelo tratamento discriminatório que recebiam e a punição extrema que lhes foi dada por terem se revoltado contra esse tratamento.

Camp Logan foi um campo de treinamento construído quando os Estados Unidos entraram na Primeira Guerra Mundial. A construção começou em 24 de julho de 1917 e 654 homens do Exército foram chamados para protegerem a obra. O Batalhão era formado por soldados negros, mas eles eram comandados por homens brancos.

Vindos de uma missão em Columbus, no Novo México, onde não havia leis raciais segregacionistas, os soldados esperavam serem tratados com igualdade. Não foi isso, no entanto, o que aconteceu. Eles sofriam constantes episódios de racismo, praticados tanto pelos trabalhadores da construção, quanto pela força policial da cidade.

Os soldados começaram a se recusar a seguirem as imposições segregacionistas que vigoravam em Houston e passaram a frequentar locais reservados apenas aos brancos. Isso aumentou ainda mais a tensão.

Em 23 de agosto de 1917, dois soldados negros questionaram a prisão violenta de Sara Travers, uma mulher negra que vivia no local. Os policiais Lee Sparks e Rufus Daniels prenderam e espancaram os dois soldados. A arbitrariedade da prisão intensificou o descontentamento que tomava conta do Batalhão. Liderados pelo sargento Vida Henry, 156 soldados encamparam uma revolta e começaram uma marcha em direção à cidade. Marchando rumo à delegacia, eles foram interceptados pela polícia e por um grupo de civis.

No confronto entre os soldados do 3º Batalhão e os policiais, 15 pessoas foram mortas e 12 ficaram gravemente feridas. Entre os soldados, ocorreram quatro mortes. Foi a primeira vez que um confronto racial nos Estados Unidos teve mais mortes de pessoas brancas que de pessoas negras.

Em meio ao embate com policiais e civis brancos, os soldados nunca chegaram à cidade, alguns dispersaram durante o conflito e 118 deles foram presos acusados de assassinato e motim. Dois oficiais brancos foram julgados, mas foram absolvidos. Nenhum civil branco foi acusado.

Em 1º de novembro de 1917, 63 soldados foram julgados na maior corte marcial da história dos Estados Unidos. Depois desse julgamento, 13 homens foram condenados à forca, 41 à prisão perpétua e trabalhos forçados, quatro receberam uma pena menor por terem acusado os seus companheiros e apenas cinco foram absolvidos.

Na manhã do dia 11 dezembro de 1917, eles foram enforcados, sem qualquer direito à apelação ou revisão da pena.

Após uma segunda corte marcial, outros seis soldados foram enforcados e mais dez foram condenados à prisão perpétua.

Uma terceira corte foi ainda realizada e mais 11 homens foram condenados à morte e 12 à prisão perpétua. Esses últimos, entretanto, tiveram a sua pena alterada e não chegaram a ser executados.

O episódio e os seus desdobramentos são lembrados como mais uma das tristes páginas da história dos Estados Unidos, em que conflitos raciais terminam com muito sangue derramado e veredictos que intensificam a sensação de que a discriminação racial é um mal que permeia muitas decisões judiciais.

Referências:

http://studythepast.com/civilrightsundergraduate/materials/houstonriot1917_houstonreview.pdf

https://books.google.com.br/books?id=l1J6MAEACAAJ&pg=PP1&redir_esc=y

https://www.tshaonline.org/handbook/entries/houston-riot-of-1917

https://sci-hub.se/10.2307/30238208

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