O massacre de Eldorado do Carajás: 25 anos de um dos massacres mais bárbaros da história do Brasil

“Esta cova em que estás, com palmos medida/ É a conta menor que tiraste em vida/ É de bom tamanho, nem largo, nem fundo / É a parte que te cabe deste latifúndio/ Não é cova grande, é cova medida/ É a terra que querias ver dividida”. Esses versos de João Cabral de Melo Neto retratam uma realidade fortemente presente no Brasil. Muitos trabalhadores rurais passam a vida lutando por seu pedaço de terra, mas o único que conseguem é o túmulo onde são enterrados.

A história do Massacre de Eldorado do Carajás é mais um exemplo do extermínio daqueles que lutam por melhores condições de vida. Naquele dia 17 de abril de 1996, a situação era tensa e a tragédia parecia já vir se anunciando.

Militantes do MST haviam bloqueado a estrada que liga os municípios de Curionópolis e Marabá, no Sudeste do Pará.  A polícia militar foi chamada para desobstruir o local. O grupo era formado por cerca de 1500 pessoas que tinham montado um acampamento às margens da Rodovia PA-50, em Eldorado do Carajás. Com a chegada da polícia, tiros foram ouvidos, entretanto, as pessoas acharam que eram balas de borracha e só deram conta do que aconteceria ali quando os primeiros corpos começaram a cair ao chão.

A “ave-bala”, tal como diz João Cabral de Melo Neto, começava a atingir os militantes e o saldo da ação foram 19 trabalhadores rurais mortos e mais 79 feridos. Muitos morreram com tiros dados pelas costas, outros foram torturados antes de serem executados. Embora a versão da polícia diga que os tiros foram disparados em legítima defesa, testemunhas deixam claro que o que ocorreu ali foi um massacre.

Além da violência com os que perderam seus entes queridos, as famílias das vítimas sofrem com a sensação de impunidade. Apenas dois policiais foram condenados pela ação.

Os sem-terra viviam acampados na região há mais de um ano. Na ocasião do massacre, eles pediam a desapropriação da Fazenda Macaxeira, em Curionópolis. Como a negociação estava emperrada, decidiram organizar uma marcha de protesto até Belém. Essa decisão foi fatal. Encurralados pela polícia, os manifestantes não tiveram como recuar. De acordo com quem sobreviveu, os policiais “chegaram para matar” e até mesmo crianças foram alvo da violência policial praticada ali.

Muitos sobreviventes ficaram com sequelas físicas, além do trauma psicológico que carregam até hoje.

Ao analisar os corpos, o legista Nelson Nassini, da UFRJ, constatou que pelo menos dez deles foram executados a sangue frio. Sendo que 7, foram golpeados com as suas próprias ferramentas: foices, facões, enxadas, antes de serem baleados. Para ele, não há dúvida de que o objetivo dos policiais era matar. Os tiros na nuca e na testa de 7 vítimas evidenciam o assassinato premeditado delas. A cabeça estraçalhada de um dos militantes explicita que não era apenas uma ação de legítima defesa. Contra os paus e pedras lançados pelos militantes, a PM revidou com gás lacrimogêneo e muita bala.

De acordo com o MST do Pará, em meio aos policiais, havia jagunços contratados por fazendeiros e esse foi um dos motivos do extermínio que ocorreu ali. No entanto, nenhum fazendeiro da região foi indiciado e apenas dois policiais foram condenados pela chacina, o coronel Mario Pantoja e o major José Maria Pereira. Preso apenas em 2012, Pantoja cumpriu quatro anos em regime fechado e passou a cumprir prisão domiciliar sob a alegação de que tinha problemas de saúde. Ele morreu recentemente em função de complicações provocadas pela Covid-19.   

Coronel Mario Pantoja

Desde aquele fatídico dia 17 de abril até hoje, a situação dos trabalhadores rurais continua a mesma. Não tivemos avanços em relação à reforma agrária e o sangue de muitos outros homens foi derramado na terra com a qual tanto sonham. O Pará continua sendo um estado marcado por intensos conflitos e a terra tão sonhada pelos trabalhadores, na maior parte das vezes, só é alcançada no momento em que são enterrados em uma cova rasa.  

Referências:

https://blogs.oglobo.globo.com/blog-do-acervo/post/massacre-de-eldorado-do-carajas-fotos-e-relatos-resgatam-terror-da-chacina-no-para-ha-25-anos.html

https://www1.folha.uol.com.br/poder/2021/04/massacre-de-eldorado-do-carajas-completa-25-anos-e-segue-como-simbolo-de-impunidade-no-campo.shtml

https://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0102-88391999000400015

https://brasil.elpais.com/brasil/2021-04-13/25-anos-do-massacre-de-eldorado-do-carajas-o-tempo-passou-mas-nem-tanto.html

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