O direito ao desligamento nos foi tirado e a gente nem percebeu

A nova revolução industrial está esgotando a mim e aos meus amigos

Quando consultamos obras historiográficas sobre o início da industrialização na Inglaterra e demais países europeus, durante o século XVIII e XIX, observamos, a partir desses escritos, que as mulheres, homens e crianças que se dedicavam ao trabalho árduo naquele período, não conheciam tempo de descanso. A vida deles era, geralmente, a grande jornada de 12 a 14 horas dentro daquelas indústrias e, quando liberados para descansar, ficavam tensos com a sirene da indústria, pois se ela tocasse, era o alerta para voltarem ao trabalho. Imagina a tensão e a ansiedade dessas pessoas? Sem direito a desligamento. Pesado isso, não é?
Segundo E.P Thompson, em seu clássico texto “Costumes em Comum”, os relógios mecânicos passaram a ser inseridos na vida cotidiana a partir dessa loucura a que as empresas submetiam seus trabalhadores. A produção passou a controlar o tempo e as pessoas passaram a viver ligadas ao trabalho e a ponteiros.
Essas ações propiciaram um esgotamento da classe trabalhadora que, mais tarde, vai desembocar em uma luta muito pesada contra as jornadas de trabalho intermináveis e a falta de qualidade de vida e de dignidade proporcionadas pelo não desligamento do trabalho.
Aquela realidade, de três séculos atrás, não está muito longe do que ocorre hoje, principalmente no trabalho remoto, em que a possibilidade de se desligar das atribuições profissionais se torna cada vez mais difícil. O WhatsApp, o e-mail, a famosa call depois do horário estipulado de trabalho, têm esgotado a mente das pessoas. A sirene agora é o sinal de mensagem, a jornada de trabalho passou a estar dentro da própria casa em grande parte dos casos. Não há forma de desligamento possível sem culpar a própria pessoa por não responder ao chamado.
O direito ao desligamento marcará o ano de 2020. A sociedade cansada, conectada 24 horas por dia. Isso esgarça a mente e o corpo e nos deixa, cada vez mais, sem entender o que é casa, o que é trabalho e qual é o tempo necessário para cada um dos dois. Não há mais separação, tudo se misturou e estamos bugando. É olho no relógio, olho nas redes sociais, olho em mensagem à noite, de madrugada. Você acorda e não consegue escovar os dentes sem que já haja cinquenta coisas pra resolver.
O desligamento é urgente e, talvez, esse seja o próximo motor de mudança das coisas por aqui.

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