A descoberta do sofrimento infantil em “Meu pé de laranja lima”

Escrito por José Mauro de Vasconcelos e publicado em 1968, “O meu pé de laranja lima” vendeu mais de 2 milhões de exemplares, já foi traduzido para 15 idiomas e está presente nas prateleiras de livrarias de 23 países.      

A história faz parte de uma trilogia que conta ainda com “Doidão”, de 1963, e “Vamos aquecer o sol”, de 1974.  

Marcando diferentes gerações de leitores, o livro conta a história de Zezé, um menino de seis anos que enfrenta a pobreza e a violência doméstica, aprendendo desde cedo a conviver com as hostilidades de uma vida marcada pela miséria.     

Cheio de sensibilidade e curiosidade, Zezé encontra em um pé de laranja no quintal o companheiro de aventuras e o consolo para suas tristezas. É no quintal de sua casa e na companhia do pé de laranja, que o garoto esquece do alcoolismo do pai desempregado, da falta que sente da mãe, sempre cansada e distante de casa por causa da enorme carga horária de trabalho, das humilhações sociais e dificuldades econômicas, que o levam a sair com o irmão para engraxar sapatos e tentar trazer algum dinheiro para casa.  

Segundo o autor, o livro é a “história de um menininho que um dia descobriu a dor”. É justamente cheia de dor a trajetória de Zezé. Com o pai desempregado e a mãe trabalhando exaustivamente em um fábrica, ele vive sob os cuidados das irmãs mais velhas, Glória e Jandira, sai para engraxar sapatos com o irmão Totoca e divide seu mundo de fantasias com o caçula Luís.       

Cena do filme Meu Pé de Laranja Lima dirigido por Marcos Bernstein

Apanhando frequentemente do pai e de todos com quem convive em casa, ele encontra na professora, no tio Edmundo e no Portuga o carinho e a compreensão de que toda criança precisa. Será o Portuga o responsável pelos seus dias mais felizes e pelas melhores lembranças que Zezé guardará de sua infância, será também a perda dele que mostrará ao menino o que é conviver com a dor da ausência de alguém que lhe mostrara o valor da amizade e do amor e lhe ensinara a compreender a vida com mais ternura.   

“O meu pé de laranja lima” é uma história comovente, que mostra a importância da fantasia na infância, mas que também provoca lágrimas em seus leitores, ao explicitar a vida de privação e miséria que marca a infância de tantas crianças e traduzir em palavras o imenso vazio trazido pela dor da perda: “Agora sabia mesmo o que era a dor. Dor não era apanhar de desmaiar. Não era cortar o pé com caco de vidro e levar pontos na farmácia. Dor era aquilo que doía o coração todinho, que a gente tinha de morrer com ela, sem poder contar para ninguém o segredo”.   

Uma obra atemporal, que cativa ainda muitos leitores contemporâneos e reforça a importância da literatura infantil e infanto-juvenil na formação de leitores e no despertar da consciência crítica em relação ao mundo que nos cerca.

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