Da pedra no caminho à flor no asfalto: a trajetória poética de Drummond

            Nono filho de um fazendeiro, Carlos Drummond de Andrade (1902-1987) nasceu em Itabira do Mato Dentro, Minas Gerais, em 31 de outubro de 1902. Em 1919, ele foi expulso do colégio de jesuítas onde estudava acusado de “insubordinação mental”. Formou-se em Farmácia, foi chefe do gabinete do Ministro da Educação Gustavo Capanema e atuou durante longos anos como funcionário público, mas foi na literatura que encontrou sua verdadeira vocação. Tornou-se conhecido em 1928, quando publicou, na “Revista de Antropofagia”, seu poema “No meio do caminho”. A primeira reação em torno desse poema foi bastante polêmica, muita gente criticou a qualidade do texto e o talento de Drummond, mas foi a partir daí que o poeta itabirano escreveu seu nome na literatura para nunca mais apagá-lo.

            Observando sua obra poética, vemos que sua poesia surge influenciada pela Primeira Fase do Modernismo, mas já apontando para uma visão crítica do mundo, de si mesmo e da própria poesia. A reflexão sobre “o estar no mundo” é uma de suas principais características, aparecendo já na pedra que se tornava obstáculo em seu caminho, passando pela consciência de que é preciso que se caminhe de “mãos dadas” em um mundo marcado por “flores amarelas e medrosas”, cheio de “homens partidos”, no qual emerge “o triste mundo fascista”. Apesar dessa angústia e pessimismo, seus versos trazem também esperança, ele acredita na “aurora”, sabe que “havemos de amanhecer”, que o mundo fascista vai se decompor, que uma flor vai nascer e furar “o asfalto, o tédio, o nojo e o ódio”.

            Ainda que ao final de sua vida, o poeta tenha se tornado mais desencantado e pessimista, a busca por respostas sempre foi a tônica de suas poesias, definir o ser humano e buscar caminhos para combater as injustiças do momento presente marcaram muitos dos versos de obras como “Brejo das almas” (1934), “Sentimento do mundo” (1940), “A rosa do povo” (1945), “Claro enigma” (1951) e “A paixão medida” (1980) e inseriram Drummond na lista de grandes poetas universais, um autor que soube como ninguém penetrar “surdamente no reino das palavras” e levar seus leitores a contemplá-las, alcançando através de sua obra “a poesia (inexplicável) da vida”. Se, como ele dizia em seu poema “Resíduo”, “de tudo fica um pouco”, dos versos de Drummond ficou muito: uma obra atemporal e universal, extremamente admirada no Brasil e em diversos outros países do mundo.

Referências:

CORREIA, Marlene de Castro. “Drummond: a magia lúcida”. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2002.

SANT’ANNA, Affonso Romano de. “Drummond, o gauche no tempo”. Rio de Janeiro: Record, 1992.

TELES, Gilberto Mendonça. “O discurso poético de Drummond”. In: ___. A escrituração da escrita. Petrópolis: Vozes, 1995.

Please follow and like us: