Guy Blaché: a primeira e genial cineasta da história, que o mundo esqueceu

Quando se pensa na história do cinema clássico, imediatamente pensamos nos nomes dos irmãos Lumiére que, em 1895, fascinaram o público do Grand Café du Boulevard des Capucines, em Paris, com a exibição das obras “A saída dos operários da Fábrica Lumiére” e “A chegada do trem na estação”, ou nos lembramos de Georges Méliès, com o seu “Viagem à Lua”, de 1902.

Há, entretanto, uma mulher que teve papel fundamental na constituição do cinema e que é pouco lembrada: Alice Guy Blaché. Ela foi a primeira cineasta e roteirista de filmes ficcionais e constituiu uma carreira no cinema marcada pela pioneirismo e inovação.

Seu primeiro filme, “A fada do repolho”, de 1896, foi baseado em um conto popular francês que tratava da origem dos bebês. Depois dele, ela produziu cerca de mil filmes e desenvolveu um trabalho de excelência, explorando diferentes técnicas visuais e temáticas. Ela foi a primeira a usar som sincronizado, cores pintadas a mão, close-ups e efeitos especiais. Além disso, abordou em suas produções questões de gênero, raça e classe, o que a colocava como uma mulher muito à frente de seu tempo.

Guy Blaché nasceu em 1873, em Saint-Mandé, na França. Filha de mãe francesa e de pai franco-chileno, ela viveu um tempo na Suíça com os avós e depois foi para o Chile viver com os pais. Seu pai era dono de uma rede de livrarias e de uma editora no Chile, o que proporcionou à Alice o contato com um meio frequentado por intelectuais desde muito cedo.

Ainda muito jovem, Guy Blaché aprendeu estenografia e, em 1894, se candidatou a uma vaga de secretária de Léon Gaumont, um dos inventores do cinema francês. 

Enquanto Gaumont e os irmãos Lumiére buscaram retratar a vida real em seu primeiro filme, Alice Guy Blaché viu na ficção um caminho para a produção cinematográfica. Ela convenceu Gaumont a permitir que ela escrevesse duas pequenas cenas e colocasse amigos para atuar nelas. Gaumont autorizou, desde que Alice continuasse exercendo as suas funções de secretária.     

Com o passar do tempo, Guy Blaché passou a ser a responsável por encontrar locações para os filmes, tornou-se diretora de elenco, figurinista, cinegrafista, editora, escritora, diretora e produtora.

Ao longo de 23 anos, a cineasta explorou uma imensa variedade de narrativas e expressões artísticas. Produziu comédias, aventuras, romances, thrillers, melodramas, westerns, épicos religiosos e documentários.

Demonstrando grande preocupação com o papel social da mulher, abordou em suas obras o sexismo e o desejo feminino. Produziu o primeiro filme narrativo com um elenco inteiramente afro-americano, discutiu questões como a imigração e o abuso conjugal.  

Em “Os resultados do feminismo”, Alice Guy Blaché inverte os papéis tradicionais de gênero

Guy Blaché mudou-se para os Estados Unidos e, em 1910, abriu junto com seu marido, Herbert Blaché, o estúdio Solax. Ao longo de toda a sua trajetória, ela precisou lidar com o fato de estar em um meio predominantemente masculino e ser, muitas vezes, deixada de lado por causa disso, inclusive por seu marido que limitava o seu espaço na condução do estúdio. Embora tenha criado para ela o estúdio Blaché Features, ele desviou recursos do Solax para executar esse empreendimento, o que acabou enfraquecendo os dois estúdios.

Algum tempo depois, Guy Blaché foi abandonada pelo marido. Ele se envolveu com uma atriz de seus filmes e mudou-se com ela para Los Angeles.

Sozinha e com dois filhos para criar, Alice mudou-se para Hollywood, mas não encontrou oportunidades de trabalho lá e acabou tendo que aceitar o serviço de assistente de seu ex-marido. Diante das dificuldades, voltou para a França com seus filhos, porém não conseguiu oportunidades em sua terra natal e nunca mais conseguiu realizar outro filme. Morreu em 1968, aos 94 anos de idade, sem, contudo, ter o reconhecimento merecido por seu trabalho cinematográfico.

Conhecer a trajetória de Alice Guy Blaché é uma forma de lhe dar o espaço que ela merece dentro da história do cinema. Uma mulher muito talentosa, criativa, que tinha um olhar visionário e buscou seu espaço dentro de um meio marcado pelo domínio masculino e pelo machismo.  

Referências:  

https://oglobo.globo.com/celina/alice-guy-blache-conheca-primeira-mulher-cineasta-da-historia-que-ha-mais-de-100-anos-ja-questionava-sexismo-1-24722083

https://www1.folha.uol.com.br/ilustrada/2020/10/dizer-quem-foi-alice-guy-a-primeira-das-cineastas-justifica-filme-narcisista.shtml

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