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O Gênio Cancelado: A trajetória de Simonal, que, por um erro, foi empurrado para ostracismo da fama

O cantor é um dos casos mais famosos de cancelamento na música popular brasileira

Wilson Simonal era um garoto negro, filho de uma empregada doméstica do Rio de Janeiro, e sua história, até a adolescência, era muito parecida com a de qualquer criança da periferia brasileira. Quando podia, ele acompanhava a mãe ao trabalho, se não ficava na rua ou em casa de vizinhos ou tias.

Quando fez 18 anos, Wilson prestou serviço militar e, no exército, começou a cantar nas festas feitas por recrutas. Com uma bela e imponente voz, afinado por natureza, Wilson foi ganhando fama e, ao sair da instituição, virou sucesso.

A fama rápida o alçou a patamares jamais imaginados para um jovem negro brasileiro. Simonal chegou a realizar 340 shows em um ano, fazendo parcerias com cantores norte-americanos famosos. Chegou a ficar conhecido internacionalmente como o Sinatra Negro. Durante os Festivais de música brasileira, sua presença de palco e a forma como criava simpatia no público eram únicas.

Com suas músicas rodou muitos países, participou da Copa de 1970 como uma espécie de embaixador da seleção no México, chegou a ser mais reconhecido e estimado que Pelé, no país que sediou o torneio. Simonal era muito famoso, muito conhecido, participava de programas de TV nos quais, com exceção dele, apenas brancos cantavam, lançou discos que foram recordistas de vendas, era respeitado por seu sucesso da ponta norte do país ao extremo sul. Tanto que o cantor foi por anos garoto-propaganda da empresa mais poderosa em território brasileiro, a gigante anglo-holandesa Shell.

Esbanjando simpatia, talento e disposição, Simonal virou o nome mais conhecido do Brasil no mundo da música por anos seguidos.
Mas a história desse homem, permeada até então pelo sucesso, mudaria radicalmente por uma decisão e um erro terrível, que o colocou em uma dura trajetória de derrocada rumo ao ostracismo.

Em um determinado momento da carreira, Simonal teria descoberto que seu contador estava passando a perna em seus negócios. Ele teria identificado grandes desfalques, dos quais até hoje não se sabe a veracidade. Segundo investigação, Simonal teria pagado a policiais do DOPS para sequestrar e dar uma “prensa” no contador. Na delegacia, o homem acusado de ter roubado Simonal foi torturado e quase morto.

Na época, Simonal já era acusado de não se posicionar contra a ditadura e de ser ufanista (uma espécie de patriota que apoiava o governo dos generais). O cantor foi chamado à delegacia e interrogado pelo delegado que descobriu conchavo entre ele e os policiais. Simonal, se vendo acuado, resolveu dar uma declaração apoiando o regime: “Sou de direita, e a culpa do país estar assim é dos subversivos”.

Um cantor, já com fama de passador de pano para a ditadura, saindo de uma delegacia e afirmando ser de direita, virou um prato cheio para ser alvo da classe artística, que, em sua maioria, era alinhada à esquerda e contra a Ditadura Militar.

No dia posterior à declaração, a revista Pasquim, responsável pelo cancelamento de muitas pessoas, colocou Simonal na lata de lixo da história o acusando de ser colaborador e “dedo duro”. Conduta reprovável. A partir desse momento, Simonal entra em queda livre, caindo no buraco do ostracismo. Com a repercussão do caso e pressão dos opositores ao regime, Simonal foi julgado e preso por ter mandado bater no ex-contador. Uma vez preso, conseguiu habeas corpus, o que aumentou ainda mais a fama de colaborador da ditadura.

Ao final dos anos 70, quando o regime dos generais já perdia força, Simonal não era chamado mais para programas de TV, shows ou qualquer atividade que pudesse mostrar sua voz. Contratar o cantor era complicado, pois quando outros artistas descobriam que ele estava no quadro da atração, cancelavam os shows. Um certo dia, ao cantar em um pequeno ginásio no Rio de Janeiro, Simonal foi vaiado pela plateia e chamado de traidor. Aos poucos, ano a ano, ele foi se afundando na bebida e depressão e afirmando sempre que nunca havia sido alcaguete da Ditadura. Nos anos 90, chegou a se esconder, em meio a um show dos filhos, para não atrapalhar o trabalho deles.

Empobrecendo, perdido no alcoolismo, e lutando para que o governo federal emitisse um documento comprovando que não foi traidor, Simonal teve uma terrível derrocada.

Quando conseguiu a prova de que não foi dedo duro, ele já estava fraco, tinha poucas portas abertas na mídia e pouca gente ficou sabendo que, de uma vez por todas, foi comprovado que ele nunca havia entregue ninguém ao Estado torturador da Ditadura Militar.

No início dos anos 2000, após internação por complicações decorrentes da Cirrose Hepática, doença desenvolvida pelo alcoolismo, Simonal falece. Era o fim de um dos cantores com a trajetória mais bonita, mas também mais trágica da história do país.

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Referências

Nem vem que não tem: A vida e o veneno de Wilson Simonal – Ricardo Alexandre

Simonal – Ninguém Sabe o Duro que Dei – Micael Langer e Cláudio Manoel – 2011 – Globofilmes

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