Entrudo: a prática carnavalesca surgida no Brasil colonial que banhava pessoas de urina e restos de comida

O Carnaval no Brasil tem sua origem no período colonial e foi com os portugueses que desembarcou no país o entrudo, prática que passou a ser realizada no Rio de Janeiro e em outras cidades brasileiras a partir de 1641.

O termo vem do latim “introitos” e significa “entrada”, “começo”, e era utilizado pela Igreja Católica para se referir às solenidades que marcavam o início da Quaresma. Festas de entrudo, entretanto, antecedem o Cristianismo e já eram realizadas há muito tempo para celebrar a chegada da primavera.

O entrudo passou a marcar o Carnaval brasileiro e ocupava tanto as ruas das cidades, como os espaços rurais e as casas das famílias. A brincadeira carnavalesca consistia em jogar nas pessoas água, farinha, polvilho, ovos, laranja podre, restos de comida, café, tinta, groselha, lama e até urina. Era uma prática comum entre os escravizados, enquanto os brancos jogavam água suja naqueles que passavam próximo de suas janelas.  

Gravura de 1884, autor desconhecido.

Homens e mulheres escravizados saíam pelas ruas com os rostos pintados e à procura de alvos para as suas brincadeiras. Era uma prática considerada bastante violenta e ofensiva, mas que conquistava cada vez mais adeptos e ia se popularizando pelos Carnavais brasileiros.

Para não compartilhar as ruas com pessoas escravizadas, as famílias mais abastadas ficavam em suas casas, entretanto, de dentro de suas residências, também aderiam à brincadeira de jogar água suja em quem transitava pelas ruas.

O entrudo era uma forma de extravasar tudo que tinha sido reprimido ao longo do ano. Naqueles três dias que antecediam a quaresma, tudo era permitido.  A bebedeira, o deboche e a comilança ganhavam as ruas, cantos eram entoados e as danças também se tornavam um motivo de diversão.

“O entrudo doméstico no Rio de Janeiro”. Augustus Earle, 1822.

A brincadeira só tinha fim na hora da Ave Maria, momento de oração para que o demônio não entrasse nas casas. Na Quarta-feira de Cinzas, ele não era permitido e o folião arrependido recebia uma cruz em sua testa lembrando-lhe que veio do pó e ao pó retornará. O arrependimento e a penitência passavam a ser praticados, a abstinência sexual e o jejum eram formas de expiar os pecados, as surras nos escravizados era a maneira de puni-los por terem vivido três dias de relativa liberdade e alegria.

Embora os escravizados pudessem se divertir durante o entrudo, eles não podiam molhar os homens brancos e a presença deles nas ruas incomodava a elite, que preferia jogar sua água e seus limões de cheiro do alto de suas sacadas para não se misturar com os negros que ocupavam as ruas.

Gravura de 1885, autor desconhecido.

A partir da década de 1840, o entrudo passou a ser criminalizado no Rio de Janeiro. Uma intensa campanha na imprensa condenava a prática e a qualificava como um ato bárbaro e violento. Assim, o entrudo passa a ser reprimido e os bailes de Carnaval frequentados pela elite carioca em grandes clubes e teatros vão ganhando fama. A brincadeira ainda resistiu por alguns anos, mas acabou sendo deixada de lado em meio à perseguição que passa a sofrer, desse modo, a folia vai ganhando outras práticas e o entrudo vai ficando somente na lembrança.

Imagem de abertura: “O Entrudo de rua no Rio de Janeiro”. Jean-Baptiste Debret, 1823.

Referências:

http://www.ppgcom.uerj.br/wp-content/uploads/Disserta%C3%A7%C3%A3o-Luiz-Gustavo-Santos.pdf

https://www1.ufrb.edu.br/bibliotecacecult/noticias/228-a-origem-do

http://www.encontro2010.rj.anpuh.org/resources/anais/8/1276734712_ARQUIVO_MONTEIRO_2010__ANPUHRJ.pdf

https://revista.fct.unesp.br/index.php/revistacidades/article/view/1916

http://www.seer.ufu.br/index.php/cdhis/article/view/13726/9490

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