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A Cova Rasa: a última moradia precária do brasileiro pobre


A Cova Rasa é a síntese da desigualdade que assola o país. E é conhecendo esse tipo de última moradia que percebemos o quão o Brasil é desigual e violento até mesmo após o fim da vida.

Cemitério do Caju

Conheça as “covas rasas” lugares onde, historicamente, são enterradas pessoas cuja família não consegue arcar com todos os custos do sepultamento.

A imagem mostra o setor das covas rasas do Cemitério do Caju. Nesse espaço, os corpos são exumados a cada três anos, não há túmulo de granito ou mármore, os enterros são 40% mais baratos, mas a grande maioria das famílias, mesmo parcelando, ainda fica devendo para o governo.

Setor de Covas Rasas no Cemitério do Caju

Em um trecho do livro “Bonitinha mas Ordinária”, Nelson Rodrigues descreve uma passagem em que Edgard, jovem pobre e aspirante a executivo, dialoga com o rico futuro sogro. O jovem lamenta a morte do pai e a vaquinha que os vizinhos precisaram fazer para poder enterrá-lo. Edgard, então, diz que quer ficar rico para não virar: “Um defunto de cova rasa”. A frase, que passa quase despercebida na obra, sintetiza o sentimento de pessoas humildes que sentem o peso da desigualdade até nos momentos mais difíceis da existência humana: a morte!

O custo de um enterro no Brasil é altíssimo para aqueles cuja renda mal dá para se alimentar. Mesmo realizando o enterro em cova rasa, um sepultamento simples fica em torno de 2 mil reais e a família não tem sequer direito a um velório, pois isso encareceria ainda mais a cerimônia fúnebre. A estas pessoas, resta enterrar seu ente querido em um chão de terra batida e pedras e cerca de meia hora para uma despedida.

Originalmente, a cova rasa era destinada a indigentes e miseráveis e representava no imaginário popular o destino final daqueles que não tinham ninguém que olhasse por eles. Atualmente, ela tem se tornado o único recurso da população mais pobre, que não tem condições de arcar com os custos de um enterro tradicional.

Além da dor da família pela perda do ente querido, o enterro em cova rasa reforça a desigualdade social e consome ainda mais os familiares, reforçando que até mesmo na hora da morte é difícil alcançar a dignidade em nosso país.

Setor de covas rasas no cemitério do Caju, RJ


Em “Morte e vida Severina”, João Cabral de Melo Neto afirma que a hora da morte era o único momento em que o retirante conquistaria o pedaço de terra com o qual sonhara a vida inteira. O aumento dos sepultamentos em cova rasa mostra que nem mesmo nesse momento a população mais pobre terá esse direito, pois os corpos enterrados nesses cemitérios permanecem ali por apenas três anos e depois são retirados para darem lugar a outros corpos de pessoas as quais não tiveram direito sequer de ter um pedaço de chão no qual seus restos mortais pudessem permanecer enterrados.

Referências:

https://oglobo.globo.com/rio/conheca-as-historias-de-quem-enterrado-em-cova-rasa-no-cemiterio-do-caju-24125369

https://www.ufrgs.br/ensinodareportagem/cidades/covarasa.html

https://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0104-71832011000200013

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