O narrador da tragédia: Primo Levi e a descrição dos horrores de Auschwitz

Através de suas narrações, em forma de testemunho, Levi levou ao mundo o terrível dia a dia de Auschwitz, lugar onde foi prisioneiro e no qual viu e relatou coisas que parecem uma ficção distópica trágica, mas eram a mais pura e triste realidade.           

O escritor italiano Primo Levi é um dos grandes nomes da literatura de testemunho. Sobrevivente de Auschwitz, ele foi preso no final de 1943, quando tinha 24 anos, chegou ao campo de concentração no início de 1944 e lá permaneceu por 11 meses.

Formado em Química, ele afirma em suas obras que seu conhecimento científico foi um fator importante para a sua sobrevivência, pois graças a ele conseguiu exercer funções menos pesadas dentro do campo e alcançar estratégias de sobrevivência.

Ao conquistar a liberdade, Primo Levi se viu diante de um dilema que marcou a vida de muitos sobreviventes: a necessidade de narrar as atrocidades ali vividas e a dificuldade de exprimir em palavras todo o horror que marcou Auschwitz. Como transformar em palavras algo que parece ser indizível? Como reviver na memória uma experiência invivível?

A escrita foi o caminho encontrado por Levi. Seu primeiro livro, “É Isto Um Homem”, foi lançado em 1947 e descreveu de forma impressionante a rotina do campo de extermínio nazista. É um relato extremamente forte dos horrores ali cometidos e do processo de animalização por que passavam os prisioneiros, ao mesmo tempo em que afirma o quanto era essencial não perder a humanidade, manter o mínimo de civilização para conseguir sobreviver em meio àquele cenário de dor e violência extrema.

Primo Levi foi um dos poucos judeus italianos que sobreviveram à Auschwitz. Em suas obras, ele relata também a dor de ter sobrevivido, afirmando em vários momentos que a sua sobrevivência significa também a morte de milhares de outros prisioneiros como ele que foram diretos para a câmara de gás ou que não resistiram ao trabalho pesado, à violência diária e às doenças que assolavam o campo.

Autor de diversas obras, Levi escreveu relatos memorialísticos, ensaios, ficção e poesia. A escrita foi o caminho por ele encontrado para lidar com a depressão que passou a acompanhá-lo pós-Auschwitz.        

A força de sua narrativa e sua habilidade para descrever todo o horror vivido são chocantes. Entre os muitos episódios tristes e dolorosos que podemos encontrar em seus escritos, destacamos dois deles que dão a dimensão exata do tipo de relato que a sua obra apresenta.     

Ao falar sobre o campo de concentração de Fossoli, aldeia perto de Carpi, local onde se fazia a triagem dos prisioneiros que seriam levados para Auschwitz, Primo Levi descreve o cuidado das mães com seus filhos. Enquanto aguardavam a viagem, elas davam-lhes banho, preparavam suas malas, lavavam suas roupas, ao amanhecer “o arame farpado estava cheio de roupinhas penduradas para secar”, “elas não esqueciam as fraldas, os brinquedos, os travesseiros, todas as pequenas coisas necessárias às crianças e que as mães conhecem tão bem”. A imagem rememorada pelo escritor mostra a beleza do cuidado materno, ao mesmo tempo em que revela a dor de saber que esse cuidado não impediria essas mulheres e seus filhos de serem encaminhados para a morte.           

Outro trecho emocionante de sua obra está em seu livro “A trégua”. Ao falar sobre os sobreviventes após a libertação, Primo Levi se lembra de um menino de três anos a quem os prisioneiros deram o nome de Hurbinek, ninguém sabia direito como ele tinha ido parar ali, “nascera talvez em Auschwitz e […] não vira jamais uma árvore”, ele não sabia falar, não tinha pai nem mãe, mas, “seus olhos vivos estavam cheios de vontade de libertar-se”. Conforme Levi, “Hurbinek morreu nos primeiros dias de março de 1945, liberto mas não redimido. Nada resta dele: seu testemunho se dá por meio de minhas palavras”.     

Esses dois pequenos fragmentos nos dão a dimensão daquilo que ele relata em suas obras, mostram o tamanho da dor com a qual ele teve que lidar após todo o horror que viveu em Auschwitz. Um horror que ficou marcado em sua pele através do número 174517 que o identificava dentro do campo de concentração, e que, sobretudo, permaneceu para sempre gravado em sua alma, levando-o a uma depressão profunda. Seu corpo foi encontrado caído no pátio de seu prédio, em 1987. Nunca se confirmou se foi suicídio ou acidente, mas o fato é que as atrocidades que ele viveu marcaram toda a sua vida e a sua obra.

Referências:

LEVI, Primo. “É isto um homem?”. Rio de Janeiro: Rocco, 2013.

LEVI, Primo. “A trégua”. São Paulo: Companhia das Letras, 2010.  

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