A ginecologista que salvou centenas de mulheres realizando abortos e matando bebês em campos de concentração nazistas

Com muita dor no coração, Gisella Perl usava as próprias mãos para efetivar o procedimento

            Narrar todo o horror vivido nos campos de concentração da Segunda Guerra Mundial parece ser tarefa impossível. Os textos produzidos por sobreviventes revelam frequentemente a dicotomia que vivem entre a necessidade de contar e a dificuldade extrema de trazer à tona uma barbárie que parecia impossível de acontecer. Ao tratar dessa questão, o escritor italiano Primo Levi afirma que os fatos acontecidos em Auschwitz não são “indizíveis”, eles foram “invivíveis”.

            Dentre os muitos relatos de sobreviventes, as memórias de Gisella Perl, ginecologista romena que assumiu a tarefa de reanimar mulheres judias após a doação forçada de sangue aos soldados é um exemplo desse dilema entre o indizível e o invivível.

            Publicado em 1948, o livro de memórias de Perl fala sobre a decisão de realizar abortos dentro do campo para salvar a vida das mulheres judias. A ginecologista conta sobre a tentativa de inibir o desejo sexual dos judeus a partir da inserção de nitrato de potássio na comida e sobre o rígido controle de natalidade que havia no campo, já que, se existia o objetivo de exterminar homens e mulheres, não faria sentido deixar que seus filhos sobrevivessem. Assim, ela afirma que as mulheres grávidas eram levadas às câmaras de gás ou aos incineradores e seus bebês recém-nascidos eram assassinados com injeção letal ou afogados.

            Por mais impensável que possa parecer, Gisella Perl relata que os prisioneiros se encontravam para fazer sexo ao lado da latrina, local marcado por excrementos e pelo forte cheiro de carne queimada saído das chaminés dos crematórios. Segundo ela, “Era ali que prisioneiras e prisioneiros se encontravam para ter relações sexuais furtivas e sem alegria, nas quais o corpo era utilizado como uma mercadoria com a qual pagar os produtos de que tanto se necessitava e que os homens eram capazes de roubar dos armazéns”.

            Dessas relações surgiam gestações indesejadas e as futuras mães passavam a correr um risco ainda maior de serem exterminadas. As mulheres que engravidavam eram informadas de que seriam levadas para um local onde receberiam ração dobrada, no entanto, elas eram enganadas. Ao se revelarem, essas mulheres eram levadas para locais onde eram espancadas, chicoteadas, destroçadas por cães, arrastadas pelos cabelos e golpeadas na barriga pelas botas dos soldados alemães. Quando caíam, eram jogadas vivas nos crematórios.

            Ao descobrir o que realmente acontecia, Perl decide que vai salvar a vida dessas mulheres. Desse modo, passa a realizar abortos ou partos antecipados dentro do campo de concentração. Sem condições adequadas, em meio à escuridão, ela contava apenas com suas próprias mãos para executar os procedimentos necessários para a interrupção da gravidez e tinha que lidar com a dor de tirar a vida dos bebês para preservar a de suas mães.

            Quando, em 1945, o Exército Vermelho exigiu a evacuação de Auschwitz, a ginecologista foi encaminhada ao campo de Hamburgo e, posteriormente, a Bergen-Belsen, onde foi a responsável pelo nascimento do primeiro bebê judeu livre.

            Em 1947, ao descobrir que a maior parte de sua família havia sido executada, Perl fez uma tentativa fracassada de suicídio. Em seguida, migrou para os Estados Unidos, onde foi acusada de crime de guerra por ter, teoricamente, colaborado com Mengele.

            Após provar sua inocência e colaborar para a condenação de diversos nazistas, Gisella Perl foi reconhecida como a responsável por salvar a vida de centenas de mulheres judias, especializou-se em infertilidade e passou a trabalhar no Hospital Monte Sinai de Nova York, atuando no nascimento de mais de três mil bebês.

            Em 16 de dezembro de 1988, Gisella Perl morreu na cidade israelense de Herzliya, para onde havia se mudado com a filha.

Gisella Perl, após a Segunda Guerra Mundial

Referências:

https://allthatsinteresting.com/gisella-perl. Acesso em: 18/01/2020.

ANSEDE, Manuel. “A mulher que ‘destruiu’ centenas de bebês para salvar suas mães dos nazistas”. El Pais. 18/08/2018. https://brasil.elpais.com/brasil/2018/08/16/internacional/1534433283_583698.html

PERL, Gisella. “I Was a Doctor in Auschwitz”. Ayer Co Pub, 1948.

NOGUEIRA, André. “Gestantes de Auschwitz: a cruel saga das mães e dos bebês nos campos da morte”. Aventuras na História. 11/01/2020. https://aventurasnahistoria.uol.com.br/noticias/reportagem/historia-gestantes-de-auschwitz-a-cruel-saga-das-maes-e-dos-bebes-nos-campos-da-morte.phtml.

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