O Massacre de Manguinhos: o dia em que a Ditadura, de forma criminosa, atrasou para sempre a Ciência no Brasil

Ao longo da história, diversos foram os golpes que atrapalharam o desenvolvimento científico do Brasil. Um desses golpes foi dão duro que ficou conhecido como “Massacre de Manguinhos”. Em 1º de abril de 1970, o governo militar cassou dez importantes cientistas que atuavam na Fiocruz, na época, chamada de Instituto Oswaldo Cruz (IOC). Além desse duro golpe, diversas pesquisas foram interrompidas, laboratórios enfrentaram o sucateamento, colaborações com centros internacionais de pesquisa foram cancelados, as pesquisas passaram a ser controladas pelos militares e o corte de verbas trouxe perdas irrecuperáveis para a ciência brasileira.

Foram cassados os seguintes pesquisadores: Sebastião José de Oliveira, Herman Lent, Moacyr Vaz de Andrade, Augusto Perissé, Domingos Arthur Machado Filho, Fernando Braga Ubatuba, Haity Moussatché (1910-1998), Hugo de Souza Lopes, Masao Goto e Tito Arcoverde de Albuquerque Cavalcanti. Com base no AI-5, eles tiveram seus direitos políticos suspensos e foram impedidos de trabalhar no Instituto Oswaldo Cruz ou em qualquer outro órgão federal.

Todos esses pesquisadores desenvolviam pesquisas muito importantes para o país, tinham mais de 30 anos de carreira, reconhecimento internacional e coordenavam equipes de jovens pesquisadores em seus laboratórios. Não foram apenas as pesquisas que foram destruídas, o trabalho de uma vida inteira foi interrompido, sonhos de jovens pesquisadores foram descartados, equipes foram desfeitas e laboratórios desativados, o que trouxe uma perda irrecuperável para o desenvolvimento científico do país.

Tantos os pesquisadores quanto os estudantes dos seus grupos de pesquisa foram expulsos dos laboratórios e todo o trabalho que realizavam foi interrompido. Além disso, eles tiveram sua possibilidade de recolocação profissional extremamente limitada, pois não poderiam mais trabalhar em instituições de ensino e pesquisa que fossem mantidas com verbas públicas. O desemprego acabou se tornando uma realidade para alguns deles, mesmo com toda a formação e experiência que tinham. Outros encontraram no exílio a única forma de continuar fazendo pesquisa.

Mesmo antes de 1970, os pesquisadores já vinham sofrendo perseguições da ditadura. Entre os anos de 1964 e 1966 vários cientistas brasileiros foram chamados a depor e se viram obrigados a responder se “eram comunistas” “faziam parte de partido político”, “exerciam atividade política no IOC”. Não foram encontradas provas contra os pesquisadores, não havia nada que pudesse justificar a cassação deles, tanto é que nenhum deles foi indiciado após os interrogatórios.

Os autores que analisam o que aconteceu em Manguinhos são unânimes em dizer que a decisão de tirar os pesquisadores do Instituto Oswaldo Cruz foi pautada em questões pessoais. Esses cientistas haviam discordado dos rumos que estavam sendo dados ao Instituto. Para eles, além de produzir soros e vacinas, o IOC deveria explorar a produção científica, pois ela era um elemento essencial para o desenvolvimento nacional. Além disso, eles tinham denunciado o ex-diretor, recém empossado como Ministro da Saúde, por desvio de verba da malária, da peste bubônica e da meningite.

Acusados de conspiração e taxados como subversivos, esses cientistas eram defensores da criação de um Ministério da Ciência e da Tecnologia e isso também não era bem visto pelos militares. Todos esses fatores juntos contribuíram para que fossem cassados e perdessem a possibilidade de continuarem realizando as suas pesquisas dentro do país.

Apenas em 1986, os dez cientistas foram reintegrados à Fiocruz. Lent optou por permanecer dando aula na Universidade Santa Úrsula, os demais sugeriram nomes que poderiam contribuir no desenvolvimento de suas pesquisas e todos foram autorizados a integrarem a equipe que se formava novamente.

Durante a cerimônia de reintegração, Darcy Ribeiro, na época vice-governador do Rio, fez um discurso que causou comoção e deixou explícito o tamanho do prejuízo causado ao desenvolvimento científico do Brasil. Em seu discurso ele disse: “A dor que me dói, a lágrima que eu choro, é pelas pesquisas que foram interrompidas e nunca mais se farão. É pelos jovens cientistas que teríamos formado e que não se formarão nunca. A Ciência é a última profissão que não se aprende nos livros. É um cientista que cria outro. E vocês, os mais preparados para frutificar novas gerações, foram proibidos de se multiplicar”.

O episódio injustificável foi mais uma das muitas ações arbitrárias praticadas durante a ditadura militar. O desenvolvimento científico e tecnológico é essencial para o desenvolvimento de um país. Defender a Ciência é garantir o futuro de uma nação e esse futuro sofreu um atraso irreparável simplesmente porque quem incomodava aqueles que exerciam o poder eram descartados sem que houvesse qualquer possibilidade de reconsideração.  

O que aconteceu em Manguinhos foi um verdadeiro massacre: um massacre de sonhos, de trabalhos, de projetos, um massacre do futuro.

Referências:

https://www.bbc.com/portuguese/brasil-52198167

LENT, Herman. “O massacre de Manguinhos”. Rio de Janeiro: Fiocruz: Edições Livres, 2019. https://www.arca.fiocruz.br/bitstream/icict/33216/4/Massacre_Manguinhos_2019_vers_web.pdf

SANTOS, Daniel Elian dos. “Ciência, política e segurança nacional: o ‘Massacre de Manguinhos’ (1964-1970)”. Dissertação de Mestrado. Rio de Janeiro: Fiocruz, 2016. https://www.arca.fiocruz.br/bitstream/icict/24013/2/Dissertao_Daniel%2520Santos.pdf

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