A Guerra de Biafra: símbolo da fome, miséria e morte na Nigéria

A Nigéria é composta por mais de 250 grupos étnicos. Em 1960, o país se tornou independente do Reino Unido. Naquela época, a sua população tinha mais de 45 milhões de habitantes e era dividida principalmente pelos povos hauçá e fula no norte; ioruba no sudoeste, e igbo no sudeste. 

Em um território marcado por diferentes grupos étnicos, muitos conflitos internos, disputa por recursos naturais e luta por poder, a independência não trouxe a paz. Em 1966, o país passou por dois golpes de Estado.  Um grupo de oficiais do exército de etnia igbo tomou o poder. Em seguida, um outro golpe foi dado e o governo foi derrubado, o que fez com que os igbos passassem a ser perseguidos pelo país.

Esse conflito fez com que se formasse a República de Biafra, localidade de maioria igbo que se declarou independente da Nigéria em 30 de maio de 1967. Esse local, entretanto, era rico em petróleo e a separação não foi aceita passivamente, o que resultou em uma guerra civil que se estendeu de julho de 1967 a janeiro de 1970, trouxe muitas mortes, miséria e fome e teve como saldo um milhão de mortos, em sua maioria, igbos.  

A Guerra de Biafra, também conhecida como Guerra Civil Nigeriana foi um conflito extremamente sangrento e foi o primeiro conflito no qual os dois lados eram comandados exclusivamente por oficiais africanos, embora houvesse a interferência do Ocidente tanto na condução da guerra, quanto no envio de armamentos.

Para conter os separatistas, o governo nigeriano usou a Marinha para realizar um bloqueio marítimo e atacar a cidade costeira de Bonny, onde ficava a refinaria de petróleo nigeriana. Essa ação foi estratégica, pois impedia que o governo de Biafra recebesse mantimentos e armamentos através do porto da cidade.

Para revidar, os separatistas tomaram as cidades de Benin e Ore e bombardearam Lagos, a capital nigeriana. Em meados de agosto, o governo retomou a cidade de Ore e forçou o retorno das tropas inimigas para Biafra. Logo depois, intensificou os ataques ao território de Biafra, conseguindo tomar várias cidades.

Além dos ataques e dos bloqueios naval e terrestre, o governo nigeriano adotou medidas econômicas que provocaram uma séria crise nos recursos econômicos de Biafra e geraram a escassez de alimentos, fazendo com que rapidamente se espalhasse uma fome generalizada pelo território.

As imagens de crianças famélicas e mães desesperadas acabaram chegando ao Ocidente, a tese de que a Nigéria estava empreendendo um genocídio do povo igbo, comoveu parte da comunidade internacional, que se viu dividida quanto a quem apoiar. Os Estados Unidos, o Reino Unido e a União Soviética apoiaram o governo nigeriano e lhe forneceram armas e equipamentos. A França, Israel, Espanha, Portugal e China apoiaram a República de Biafra, reconhecendo-a politicamente e fornecendo armas aos separatistas.

Cartaz de protesto contra a Guerra de Biafra

O conflito durou três anos e resultou em uma imensa pilha de corpos e em cicatrizes que permanecem abertas até hoje e fazem com que a Nigéria siga sendo um território dividido por conflitos étnicos.

Ajuda humanitária enviada a Biafra

Em janeiro de 1970, as forças do governo nigeriano conseguiram retomar o controle de todo o território de Biafra e o Major General Phillip Effiong assinou a rendição da República de Biagra, colocando fim à guerra.  

O término do conflito, entretanto, não apagou as memórias da grande tragédia humanitária que foi a Guerra de Biafra. Além dos bombardeios e das chagas deixadas por uma guerra civil, a imagem da fome que se alastrou por Biafra se tornou o símbolo de mais um triste conflito acontecido em território africano, resultado da exploração praticada pela Europa, que fatiou o continente sem levar em conta a diversidade étnica que marcava o território. Em seu livro “Meio Sol Amarelo”, Chimamanda Ngozi Adichie fala sobre essa guerra e lembra de como as imposições europeias foram determinantes para o destino de seu país e da construção da identidade de seu povo: “Claro, claro, mas o que eu digo é que a única identidade autêntica para um africano é sua tribo”, disse o Patrão. “Eu sou nigeriano porque o branco criou a Nigéria e me deu essa identidade. Sou negro porque o branco fez o negro ser o mais diferente possível do branco. Mas eu era ibo antes que o branco aparecesse” (ADICHIE, 2008, p. 31).

Referências:

OLIVEIRA, Guilherme Ziebell. “O papel da Guerra de Biafra na construção do Estado Nigeriano: da independência à segunda república (1960-1979)”. Monções: Revista de Relações Internacionais da UFGD, Dourados, v.3. n.6, jul./dez., 2014 Disponível em: http://www.periodicos.ufgd.edu.br/index.php/moncoes 2

https://www.bbc.com/portuguese/internacional-39919926

FREITAS, João Felipe Assis de. “Guerra de Biafra: as imagens de uma tragédia refletidas no espelho social”. Anais do SILIAFRO. Número 1. EDUFU,2012. http://www.ileel.ufu.br/anaisdosiliafro/wp-content/uploads/2014/03/artigo_SILIAFRO_33.pdf

FORSYTH, Frederick. “A História de Biafra: O Nascimento de um Mito Africano”. Rio de Janeiro: Record, 1977.

ADICHIE, Chimamanda Ngozi. “Meio Sol Amarelo”. São Paulo: Companhia das Letras, 2008.

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