A Revolta da Chibata: o ponto final na escravidão brasileira à base da bala

A escravidão terminou oficialmente no dia 13 de maio de 1888, data na qual a Princesa Isabel assinou o documento conhecido como “Lei Áurea”. Essa ação fez com seu nome fosse lembrado em ruas e clubes comunitários em todo o país. Mas, na verdade, o fim da escravidão é resultado de todo um processo árduo de lutas e muito sangue negro derramado.

O evento de que vamos falar aqui, ocorrido no início do século XX, foi um dos marcos mais importantes da história da luta do negro contra a escravidão. Denominada como revolta da Chibata, a ação marcou a história brasileira e suas consequências reverberam até hoje.

O Brasil foi o país do mundo que mais recebeu escravizados. O cais do Valongo, localizado no Rio de Janeiro, aportou mais escravizados do que todos os países da América do Sul juntos.

A chegada de navios negreiros e traficantes era gerenciada e vigiada pela Marinha brasileira e foi dessa forma, ajudando a fazer a logística do tráfico humano, que essa instituição se consolidou como um dos mais importantes braços das forças armadas.

A estreita relação entre Marinha e escravidão encontrará seu acerto de contas no final de 1910, quando um homem chamado Marcelino Rodrigues, conhecido como baiano, após tomar um trago em um bar, entrou no navio em que estava alocado com duas garrafas de cachaça. Logo na entrada, um cabo, querendo subir na carreira, denunciou ao oficial de plantão.

Na época, a Marinha tinha mantido traços fortes do processo escravagista entre seus membros do baixo clero, formado principalmente por negros e nordestinos, que procuravam uma forma de se incluir na sociedade, os marinheiros do chão do navio eram tratados de forma extremamente desumanas. No estatuto do castigo, os homens poderiam ser chicoteados por coisas como: jogo de baralho, pinga, contato com mulheres e até o levante de tom de voz para com o oficial. Outra questão que também gerava revolta, é que, geralmente, os oficiais responsáveis por ditar os castigos eram pessoas da classe média ou ricos e brancos.

Um navio da Marinha reproduzia a sociedade escravagista aos moldes do militarismo. Era uma bomba, prestes a explodir a qualquer momento.

Mas vamos voltar ao Marcelino e suas duas garrafas de cachaça.

Após o marinheiro ser flagrado e dedurado pela ação que promoveu, Baiano arrancou uma navalha do bolso e foi para cima do cabo que o entregara ao oficial. Marcelino certamente cortaria o pescoço do algoz, porém foi impedido por outros companheiros. Entregue ao oficialato, foi submetido a uma pena de 250 chibatadas. 10 vezes a mais do que o estatuto do castigo permitia. É isso mesmo, 250 chibatadas. Não fosse apenas o castigo, os oficiais brancos colocaram toda a tripulação perfilada para ver o evento doentio. Enquanto os tambores tocavam, o estralo do chicote no lombo de baiano, causava dores e aumentava o sentimento de revolta no coração de seus companheiros.

Chicoteado até a morte, o corpo de Marcelino ficou exposto ao sol durante horas. No porão, após o ritual sádico do castigo, parte da tripulação recebeu comida azeda e com larvas, alimentação típica dada aos marinheiros do chão do navio.

A vida em um navio da Marinha era um verdadeiro inferno, era uma senzala flutuante no mar quente das águas da Guanabara.

No período em questão, o Brasil havia fechado um contrato de venda de navios de guerra com a Inglaterra e os Estados Unidos. Alguns marinheiros e oficiais foram enviados ao país europeu para aprender como operar as novas embarcações. Lá, em terras estrangeiras, observaram e ficaram impressionados com o tratamento dispensado aos marinheiros. Eles eram tratados como gente. Recebiam comida boa, não havia castigos corporais e havia um plano de carreira para o marinheiro que quisesse virar oficial.

Após a surra e morte de Baiano, alguns líderes, que já estavam planejando um revolta há meses, enxergaram na ação o rastilho de pólvora que faltava acender. Entre esses líderes estava “João Candido”, um homem negro, alto, forte, cujos ancestrais foram escravizados.

Então, os marinheiros, liderados por Candido, mataram o capitão João Batista das Neves, responsável pela morte de Baiano e tomaram o navio.

Conforme relatos da época, cerca de 4 mil homens seguiram João Candido e seu demais líderes. Quatro navios foram tomados pelos revoltosos: São Paulo, Minas Gerais, Cruzador Bahia e o navio de defesa Costeira Deodoro. Naquele final de ano de 1910, os marinheiros obedeciam, pela primeira vez, alguém com a mesma cor, origem e classe social que eles.

João Candido foi chamado de Almirante. Os navios foram colocados próximos do Rio de Janeiro, capital do Brasil na época, e as ordens foram dadas: os canhões devem ser direcionados para a sede do governo. À primeira ordem, pode descarregar pólvora nos governantes.

Alguns dos mais habilidosos marinheiros realizavam manobras ousadas com os navios de Guerra, levando ainda mais pânico aos políticos e à elite da cidade. Com o pânico, muita gente fugiu da localidade. Políticos foram retirados às pressas e documentos importantes foram evacuados do Palácio da Guanabara.

Tomados pelo medo de morrer nas mãos de quem sempre foi oprimido. Os políticos brasileiros, sobretudo o presidente Hermes da Fonseca, decretaram muito rapidamente, o que não haviam feito em 30 anos: extinguiram as chibatadas e castigos físicos e prometeram anistia aos amotinados.

Satisfeitos com as vitórias, João Candido, seus líderes e os marinheiros resolveram aceitar o acordo com o governo. E a coisa deveria ter parado por aí. No entanto, se há algo que o governo brasileiro, historicamente, sabe fazer muito bem, é descumprir acordos.

Apenas um mês depois, a Marinha e governo brasileiro revogaram o acordo de anistia, alegando que uma pequena revolta na “Ilha das Cobras”, no litoral Sudeste, havia quebrado as regras impostas. Aí começou a caçada de vingança do Estado brasileiro.

Candido foi colocado em uma cela fétida no Rio de Janeiro, local onde Tiradentes ficou, um século antes, com mais 17 marinheiros. Não havia nem lugar para deitar e dormir. Não bastasse esse tratamento, a Marinha mandou jogar cal e água no chão, para que a mistura comesse a pele dos marinheiros e entrasse em seus pulmões, facilitando a morte. No fim de uma semana, apenas dois marinheiros sobreviveram. Um deles era João Candido, o homem ao qual o Estado não conseguia dar fim.

Naquele final de 1910, muita gente foi morta, exilada em seringais no Norte do Brasil, ficando à mercê da malária e da febre amarela. Outros tantos foram enviados para a Ilha das Cobras, local usado como prisão. Sobrou até para mulheres envolvidas com os marinheiros, que foram enviadas para servirem como escravas sexuais no norte do país.

João, após ter passado por tudo isso, faleceu idoso, como pescador pouco conhecido, com sua vara e rede jogada ao mar, local onde, com sua luz e força, ajudou a mudar o Brasil.

Realmente, Candido era um homem do mar, foi o fruto do oceano de desigualdades que o país produziu ao longo dos anos e que, após tomar a superfície, alterou as coisas por aqui. A história de João é como a de muitos homens e mulheres negras observadas em toda nossa trajetória como nação. É a síntese das pessoas que se levantam contra a opressão em um Estado vingativo, dominado pela elite, chamado hoje de “República Federativa do Brasil.

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Referências:

MOREL, Edmar. “A Revolta da Chibata”. São Paulo: Paz&Terra, 2016.

MOREL, Marco. “João Cândido e a luta pelos direitos humanos. Livro fotobiográfico”. Brasília: Fundação Banco do Brasil, 2008. v. 1.

MARTINS, Hélio Leôncio. “A revolta dos marinheiros, 1910”. São Paulo: Ed. Nacional, Rio de Janeiro: Serviço de Documentação Geral da Marinha, 1988.

ALMEIDA, Silvia Capanema P. de. “Do marinheiro João Cândido ao Almirante Negro: conflitos memoriais na construção do herói de uma revolta centenária”. Revista Brasileira de História. São Paulo, v. 31, nº 61, p. 61-84- 2011. http://www.scielo.br/pdf/rbh/v31n61/a04v31n61.pdf

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