O assassinato de Margot Proença Gallo – o polêmico feminicídio que chocou o Brasil

Margot Proença Gallo era professora de Filosofia na Escola Culto à Ciência, em Campinas. Casada com o procurador de Justiça, Augusto Monteiro Gallo, era mãe de dois filhos biológicos e um filho adotivo e levava uma vida aparentemente feliz.

Sua filha, Maitê Proença, viria a se tornar anos mais tarde uma famosa atriz. Antes disso, porém, ela terá a sua vida marcada por uma tragédia: seu pai matou sua mãe a facadas.

O crime que chocou a cidade de Campinas foi praticado por ciúmes. Augusto desconfiava que Margot tinha um caso com seu professor de francês, Ives Gentilhomme, e teria esfaqueado a esposa durante uma briga.

Segundo o que ele declarou em depoimento, no dia 3 de agosto de 1970, chegou do trabalho e não encontrou a esposa em casa, foi informado pela empregada de que ela voltaria em breve. Ele estranhou a ausência de Margot no horário do jantar e decidiu ir atrás dela, encontrou-a nos Correios, com uma carta na mão. O procurador puxou a carta e a rasgou ao meio. Lendo a parte que ficou com ele, constatou que se tratava de uma declaração de amor destinada ao professor de francês da esposa.

Essa carta teria sido a prova de desconfianças que ele já nutria. Quando Margot chegou em casa, seu esposo ameaçou-a com um revólver e a agrediu, obrigando-a a entrar em seu carro. Durante o trajeto, ele ameaçou matá-la várias vezes, mas não tinha coragem de puxar o gatilho. Augusto, então, atirou o carro contra um poste e pediu que a esposa o matasse. Margot conseguiu escapar e voltou para casa com o delegado José Hernandez. Ele era amigo da família e, depois de conversar com ambos, conseguiu fazer a reconciliação.

A paz, entretanto, não retornou à residência da família Gallo. Dias depois, a empregada disse ao patrão que já tinha visto Ives na casa, enquanto Augusto viajava. Enfurecido, ele começou a fazer uma investigação e ficou convencido de que a esposa o traíra em mais de uma ocasião, tendo se envolvido também com um ex-aluno chamado Milton.

No dia 7 de novembro de 1970, ele confrontou a esposa e, conforme seu depoimento, ouviu a seguinte declaração dela: “Você é um corno, seus amigos não são seus amigos, são meus. Durmo com todos eles. Aquele procurador do estado, o Mário Vieira, foi meu amante. O meu aluno, o Luís, também, e o francês, o Ives, minha intenção é morar com ele”. Após confessar suas relações adúlteras, segundo Gallo, a esposa o teria agredido e, para se defender, ele pegou a faca de escoteiro de seu filho Renê Augusto e desferiu 11 golpes contra a mulher.

Depois do crime, Augusto fugiu levando a arma com a qual tirara a vida da esposa. Dez dias depois, se apresentou à delegacia e contou a sua versão dos fatos, não chegou sequer a ser preso. O caso foi julgado pelo juiz José Augusto Marin, amigo do procurador. Cerca de 40 testemunhas foram ouvidas, dentre elas, Maitê Proença, na época com 12 anos, que confirmou ter visto Ives em sua casa.  

Mesmo sendo querida e admirada na escola onde trabalhava, tendo vários depoimentos que defendiam Margot, Augusto Monteiro Gallo foi declarado inocente. Conforme a sentença, o procurador teria sido tomado de cólera, agido por intensa emoção em legítima defesa da honra. Ele saiu do julgamento vitorioso e foi aplaudido por diversos campineiros que esperavam na saída do Fórum. A defesa recorreu, um novo julgamento ocorreu, no entanto, mais uma vez, Gallo foi absolvido.

Maitê Proença evita falar da tragédia que se abateu sobre sua família, mas declarou em algumas entrevistas que tinha uma vida perfeita ao lado do pai, da mãe e dos irmãos, que a sua casa era marcada por magia. A mãe tocava piano e o pai contava-lhe histórias e fábulas da mitologia. Nos últimos tempos, porém, o clima tinha se tornado pesado, seu irmão mais velho até tinha saído de casa e os conflitos entre o pai e a mãe tinham se intensificado.

Após o assassinato da mãe, Maitê passou a viver em um pensionato com o irmão mais novo. Algum tempo depois, viajou por vários lugares e, a partir de 1979, mergulhou profundamente na carreira de atriz, raramente tocando na história trágica de sua família.

Augusto Monteiro Gallo se matou em julho de 1989, com dois tiros no coração, enquanto lidava com um câncer generalizado. Zuza, irmão adotivo de Maitê, também cometeu suicídio. Renê envolveu-se com drogas pesadas, mas há 20 anos está curado do vício. Atualmente, é casado e tem uma escola de idiomas em Campinas. Maitê encontrou na arte a forma de lidar com seus dramas, levando elementos de sua história para os palcos, através do monólogo “O pior de mim”.

De Margot, restaram as boas memórias daqueles que com ela conviveram, a admiração de seus alunos e colegas de trabalho e os versos que o poeta e crítico literário Alcides Villaça escrevera em sua homenagem: “ […] Não frutificou o grito agudo de morte. / Não frutificou um abandono a todos os desesperos. / Não frutificou a inocência entre as relatividades.  / Teu fruto único é o horizonte, a suavidade/ da tua falta, o conforto da tua falta.  / Pois já existiu quem faltava / e, sem dor, nos faz companhia”. Restou também a sensação de impunidade diante do crime brutal que colocou fim à sua vida.

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Referências:

https://oglobo.globo.com/ela/gente/as-minhas-pessoas-foram-morrendo-todas-de-forma-tragica-diz-maite-proenca-24620525

https://veja.abril.com.br/cultura/maite-proenca-fala-sobre-o-assassinato-da-mae-pelo-proprio-pai/

http://memoria.bn.br/DocReader/Hotpage/HotpageBN.aspx?bib=123307&pagfis=3085&url=http://memoria.bn.br/docreader#

ELUF, Luíza Nagib. “A paixão no banco dos réus”. São Paulo: Saraivajur, 2017.

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