Terror no Congo: o genocídio de 10 milhões de pessoas que o mundo esqueceu

A história do Congo passa por um processo diferente dos demais territórios africanos fatiados pelos colonizadores. Em 1884, quando a África foi dividida entre os europeus, a região onde hoje se localiza o Congo foi declarada propriedade privada, pertencendo exclusivamente ao rei Leopoldo II, da Bélgica. Assim, formou-se o Estado Livre do Congo e instaurou-se um regime de crueldade extrema, marcado pelo extermínio da população local, fazendo com que o período ficasse conhecido como “Holocausto esquecido da África”.

Localizado em um território coberto por florestas densas e pouco conhecido pelos europeus, o Congo foi chamado de “coração das trevas”, expressão que daria título ao famoso livro de Joseph Conrad. O nome era fruto não só do desconhecimento do local, mas principalmente do fato de que os europeus consideravam os africanos atrasados e ignorantes, portanto, imersos nas trevas.

Acreditando que essa região inexplorada pudesse ter grandes riquezas, o rei Leopoldo II contratou o jornalista galês Henry Morton Stanley para mapear a bacia do rio Congo e, mesmo tendo outros países da Europa interessados na região, ele conseguiu ter o domínio desse território, sendo um dos grandes incentivadores da Conferência de Berlim, na qual se definiu um novo desenho para o continente africano.  

Garantindo a posse do território que cobiçava, o rei Leopoldo II instaurou um estado absolutista, que lhe conferia poder total e lhe permitia cometer todos os tipos de atrocidades que quisesse.

Colonizador exibe a mão amputada de um congolês

Do ponto de vista econômico, o Estado Livre do Congo lucrava com a exportação do látex, abundante nas florestas da região; com a extração do marfim e com a mineração. Além da exploração que era praticada contra a população local, o governo começou a estipular metas que deveriam ser cumpridas e a mutilar os trabalhadores quando não atingiam os níveis esperados. Assim, tem início um genocídio sem precedentes naquela região e cestas com mãos decepadas colocadas aos pés dos comandantes europeus passam a ser símbolo do que era praticado sob os domínios do rei Leopoldo II.

Decepar as mãos dos trabalhadores se tornou uma prática de intimidação usada para aumentar a produção. Aliadas a esse tratamento cruel, as péssimas condições de vida contribuíam para o surgimento de muitas doenças e para a desnutrição. Desse modo, cerca de 10 milhões de pessoas morreram no Congo durante o governo de Leopoldo II.

Sem nunca ter pisado no território congolês, o rei belga instaurou um regime de horror, marcado por um exército de mercenários que capturavam escravos para trabalhar na produção de marfim, nas minas e na coleta de látex para a produção de borracha. Vilas inteiras foram queimadas, punições eram exibidas em praça pública e contavam com esquartejamentos e assassinatos em massa. Mulheres e crianças eram mantidas como reféns para obrigar os homens a trabalharem na colheita de látex, torturas e jornadas diárias de até 18 horas de trabalho marcavam a rotina dos congoleses. A crueldade era tamanha que se um soldado do rei perdesse uma bala por falta de disciplina, a mão direita do trabalhador deveria ser levada como compensação.

Pai observa o pé e a mão da filha, amputados por agentes belgas

As imagens de congoleses mutilados começaram a chocar a Europa, mas o rei afirmava não ter conhecimento desse tipo de violência e dizia estar no Congo em missão humanitária, tendo como único objetivo civilizar aqueles povos atrasados, vítimas da escuridão da ignorância.

As críticas ao governo belga se tornaram ainda maiores quando um cidadão britânico foi executado por agentes belgas. Acusado de comércio ilegal, ele foi enforcado em 1895, sem passar por um processo judicial. No momento em que a morte de um europeu veio à tona, as arbitrariedades praticadas pelo governo belga em território congolês começaram a ser efetivamente denunciadas e autores importantes como Joseph Conrad, Arthur Conan Doyle e Mark Twain passaram a fazer uso da literatura como arma de denúncia contra as atrocidades ali cometidas.

Em 1908, finalmente, Leopoldo II perdeu o domínio sobre o Estado Livre do Congo, nascendo, assim, o Congo Belga, o qual se tornaria um país independente na década de 60 do século passado. Entretanto, o rei só abriu mão de seu território particular após receber uma indenização de mais de dois bilhões de dólares. Enquanto o seu algoz lucrava mais uma vez, o novo Congo nascia já tendo como legado uma história de pobreza e opressão.

Extração de marfim

Atualmente, grande parte desse território compõe a República Democrática do Congo e vive uma situação econômica bastante precária, tendo um PIB que não atinge 70 bilhões de dólares por ano. Além disso, poucos foram os anos de paz na região, a história do Congo segue marcada por muita violência, golpes de estado e guerras civis.

As marcas das atrocidades cometidas durante o “Holocausto esquecido” seguem firmes e o questionamento do porquê há um silêncio tão grande em relação a esse genocídio também. O apagamento de toda a barbárie ali praticada começou a ganhar alguma visibilidade durante os protestos antirracistas que tomaram o mundo em meados de 2020, momento em que uma estátua do rei Leopoldo II foi vandalizada, fazendo com que ela fosse retirada da cidade de Antuérpia, na Bélgica, e levada para um museu.

No final de junho desse mesmo ano, o rei Philippe da Bélgica enviou ao presidente Félix Tshisekedi, do Congo, uma carta na qual se manifesta sobre as ações do seu trisavô, Leopoldo II, manifestando profundo pesar “pelo sofrimento e pela humilhação” a que o Congo foi submetido durante os anos em que esteve sob domínio belga.

Prisioneiros congoleses

Uma carta escrita tanto tempo depois tem um papel histórico importante, mas, ainda é muito pouco diante do fato de que metade da população congolesa morreu de fome, tortura e maus-tratos, enquanto o governo belga se apropriava de tudo que lhe pudesse trazer algum lucro.

Referências:

CONRAD, Joseph. “Coração das Trevas”. Rio de Janeiro: Antofágica, 2019.

HOCHSCHILD, Adam. “O fantasma do Rei Leopoldo”. São Paulo: Companhia das Letras, 2000.

TRAUMANN, Andrew Patrick e MENDES, Fernanda Celli Correa. “A partilha da África e o Holocausto que o mundo não reconheceu”. Revista Relações Internacionais no Mundo Atual, n. 20, v. 1, p. 253-274, 2015.

https://oglobo.globo.com/analitico/carta-da-belgica-ao-congo-primeiro-passo-de-acerto-de-contas-com-genocidio-racista-24507719

https://www.gazetadopovo.com.br/ideias/como-a-belgica-decepou-maos-bracos-e-matou-mais-de-15-milhoes-na-africa-1s4q005faaje073ntfm4syd0b/

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