Nas trilhas da saudade: um percurso pela origem do termo e seu significado em português

“A saudade é uma tatuagem na alma: só nos livramos dela perdendo um pedaço de nós”. A definição que o escritor moçambicano Mia Couto nos traz para a palavra saudade casa muito bem com o significado que esse termo assumiu na língua portuguesa, referindo-se a um sentimento que fica entranhado dentro de nós, trazendo a melancolia da lembrança e o desejo de rever aquele que está ausente.

Cantado em verso e prosa por diferentes autores da literatura em língua portuguesa, o termo saudade gera debates não só sobre a sua origem, como também a respeito de uma visão propagada de que seria um termo exclusivo da língua portuguesa.

Há duas hipóteses acerca da origem dessa palavra. Uma vertente de pesquisadores defende que ela teria vindo do árabe “saudah”. Conforme esses pesquisadores, o termo significaria “sangue pisado” e “preto dentro do coração”, o que metaforicamente combina muito bem com a tristeza profunda que pode ser trazida pela saudade.

Há uma outra vertente, mais aceita dentro dos estudos etimológicos, a qual defende que a palavra saudade tem origem latina: “solitate” ou “soledade”, que significa “isolamento, solidão”.

Em algumas línguas latinas o termo foi mantido, é o caso do castelhano (“soledad”), do italiano (“solitudine”) ou do francês (“solitude”). Em português e no galego a palavra foi sofrendo mudanças ao longo do tempo. Há diferentes registros desse termo na poesia trovadoresca do século XII: “saydade”, “soidade” e “suidade”, mas foi na época das Grandes Navegações que ele ganhou força em Portugal e passou a ser usado para definir o sentimento que tomava conta dos portugueses ao se verem distantes de sua terra natal, de seus amigos e familiares, o que vai dar à palavra saudade uma conotação de melancolia e sofrimento.

Conforme o dicionário Houaiss, a saudade é “um sentimento melancólico de incompletude, ligado pela memória a situações de privação da presença de alguém ou de algo, de afastamento de um lugar ou de uma coisa, ou à ausência de certas experiências e determinados prazeres já vividos e considerados pela pessoa em causa como um bem desejável”.

Quanto à ideia de que o termo saudade só exista em Língua Portuguesa, o que se pode dizer é que se trata de um sentimento universal. No entanto, ele é traduzido de formas diferentes em cada língua e pode assumir uma significação diversa da dor da ausência que marca a definição que esse sentimento apresenta no português.

Em outras línguas, temos palavras como “souvenir” (francês), “sehnsucht” (alemão), “nostalgia” (grego) e “remembrance” (inglês), elas, entretanto, não são equivalentes à saudade portuguesa e precisam ser associadas a outros termos para expressarem o significado que a palavra assume em nossa língua.  

Na época da escravidão, vimos surgir um termo ainda mais forte que saudade, o “banzo”, usado para definir uma saudade que provocava a morte de escravizados, que, tomados pela melancolia e sofrimento, tiravam a própria vida para não enfrentarem a dor da distância da terra natal, da ausência dos entes queridos e da opressão da escravidão.

Ao olhar para a palavra saudade fica claro que o sentimento pode estar presente na vida de qualquer pessoa, mas, conforme o poeta português Almeida Garret, apenas a língua portuguesa foi capaz de unir em um único vocábulo a força do coração e da memória. Uma força que leva às lágrimas quando a saudade aperta, porém que também conforta ao trazer as lembranças do que foi vivido. Como diz Manuel Bandeira, “Choras sem compreenderes que a saudade/É um bem maior que a felicidade. /Porque é felicidade que ficou!”

Referências:

HOUAISS, Antônio e VILLAR, Mauro de Salles. “Dicionário Houaiss da Língua Portuguesa”. Rio de Janeiro: Objetiva, 2001.

LOURENÇO, Eduardo. “Mitologia da Saudade: Seguindo de Portugal como destino”. São Paulo: Companhia das Letras, 1999.

https://repositorium.sdum.uminho.pt/bitstream/1822/9874/1/Tese.pdf

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