“A queda para o alto”, a obra do primeiro autor brasileiro transgênero e ex-interno da Febem

“Tantas mãos, tantas linhas incertas/ tantas vidas cobertas, sem ninguém pra sentir/ Tantas dores, tantas noites desertas/ tantas mãos entreabertas, sem ninguém pra acudir”. Esses versos de Anderson Herzer traduzem as dores que marcaram a sua vida e que se materializam em sua poesia. Dos 14 aos 17 anos de idade, Anderson Herzer viveu na Febem (Fundação Estadual para o Bem-Estar do Menor de São Paulo), não por ter cometido algum delito grave, mas porque a sua tia não aguentava mais conviver com ele e o entregou a uma instituição.

As tristes experiências ali vividas deram origem a poemas, peças de teatro e ao livro “A queda para o alto”, publicado em 1982, graças à mediação de Eduardo Suplicy, que se responsabilizou pelo jovem, o que permitiu que ele saísse da Febem.

Nas páginas escritas por Herzer, nos deparamos com um relato autobiográfico, que expões as agressões físicas e verbais praticadas contra os internos, os episódios de tortura física e psicológica e as agressões que ele viveu por ser transexual.

Anderson foi registrado no cartório como Sandra e assumiu uma nova identidade depois da morte de seu namorado Bigode em um acidente de moto. Conforme Lia Junqueira, a dor da perda do único homem com quem estabelecera laços de amor, pode ter sido o impulso para que Herzer passasse a assumir uma nova identidade e adotasse o nome Anderson Bigode Herzer.

Ao longo de seu relato, em diversos momentos, é possível ver o embate do autor com a sua identidade de gênero. Suas tentativas de entender o que acontecia com o seu corpo, com os seus desejos e com a caracterização física que passa a assumir estão presentes em sua narrativa autobiográfica.  Os cabelos curtos, as roupas largas, os pelos nas pernas tornam-no alvo de críticas dos agentes, a alcunha de “mulher paraíba”, “machão sem bolas” e “mulher-macho” tornam-se frequentes no modo como eles se referem a ele.

Seu livro, além de ser um relato contundente das agruras vividas na instituição para menores, entrou para a história por ser a primeira obra publicada de um autor transgênero no país.  

O livro fez grande sucesso, entrando para a lista dos mais vendidos na época de seu lançamento. Além disso, inspirou o filme “Vera”, de Sérgio Toledo.

Ana Beatriz Nogueira no filme “Vera”

De acordo com a pesquisadora da UnB, Leocádia Aparecida Chaves, a obra sempre foi lida como um “diário de um ex-detento da Febem”. Com o avanço dos estudos sobre transgeneridade, entretanto, essa questão também passa a ser analisada no livro de Herzer e permite compreender as dificuldades enfrentadas por um homem trans como interno da Febem.

Na época em que foi escrito, o termo transgênero ainda não era usado, Herzer, no entanto, refere a si mesmo no masculino e demonstra ter consciência de que não se identifica com o gênero que lhe foi atribuído ao nascer: “Para mim, eu era um rapaz em fase adolescente, e para alguns um caso que deveria ser tratado clinicamente”.

Herzer nasceu em 10 de junho de 1962, na cidade de Rolândia, no Paraná. Quando tinha 4 anos de idade, seu pai foi brutalmente assassinado. Logo depois, a sua mãe começou a se prostituir para sustentar o filho e morreu alguns anos depois, vítima de uma doença venérea. As perdas não pararam por aí. Viveu um tempo com a avó, mas logo ela faleceu também e seu destino foi viver com uma tia em São Paulo.

A vida na casa da tia não foi fácil. Ele criou vínculos afetivos com a nova família, mas sofreu quando descobriu que a tia traía o marido e perdeu completamente o chão quando o seu tio tentou estuprá-lo. A violência praticada pelo homem que considerava como um pai, deixou traumas no adolescente, levando-o ao mundo da bebida e das drogas aos 14 anos de idade: “A bebida já era meu alimento diário. Sem o álcool, eu não era nada, brigava muito em casa, mas bastavam algumas doses e me transformava, jogava palitos, baralho, participava de rachas de carros e motos, em São Bernardo do Campo. Porém, se não bebesse nada, só tinha vontade de fugir, de brigar, de ver sangue alheio ou meu mesmo”. (HERZER,1982, p.35)

Os problemas familiares fizeram com quem fosse levado para a Febem em 1976 e lá permanecesse até 1980, quando, Lia Junqueira, presidente do Movimento em Defesa do Menor apresentou seu caso ao então deputado Eduardo Suplicy e ele passou a se responsabilizar por Herzer, dando-lhe um trabalho na Assembleia Legislativa.

Foi graças à intervenção de Suplicy que o livro “A queda para o alto foi publicado” e Herzer pôde deixar registrado na história o seu depoimento de vida e os poemas que compunha. Na abertura do livro, o autor se apresenta de maneira poética ao leitor e afirma: “Nestas palavras expresso o meu mundo/em que às vezes eu me perco e me confundo/minha tristeza está expressa em meu olhar/minha verdade, nestas folhas a voar”.

Através da escrita, Herzer vai construindo a sua identidade, denunciando as dores físicas e psicológicas enfrentadas em uma instituição marcada pela opressão e pela violência que, em seu caso, se torna maior ainda em função do preconceito por causa de sua identidade de gênero.

A escrita, porém, não foi suficiente para Herzer lidar com o que sentia, não eram apenas as marcas da orfandade, da violência sexual ou dos castigos físicos comumente aplicados na Febem que lhe causavam uma imensa dor. Toda vez que alguém pegava a sua identidade e questionava por que um rapaz tinha o nome de Sandra, Anderson sentia o peso do preconceito que marcara toda a sua curta vida.

Quando estava perto de realizar o sonho de ver seu livro publicado, ele não resistiu à dor que o consumia. No dia 10 de agosto de 1983, jogou-se do Viaduto 23 de maio, em São Paulo. Foi socorrido com vida, mas não resistiu aos ferimentos.

Em seu poema “Minha vida, meu aplauso”, Herzer deixa claro como buscou através de sua escrita o seu lugar no mundo, como fez de sua vida “um enorme palco”, um palco vazio, porém, marcado pela solidão, pela tristeza, pela busca constante do amor e da compreensão. A solidão só foi quebrada quando seu corpo estava “estendido no chão”, e a multidão apareceu na noite fria para ver o corpo que morria.

Seus versos traduzem a sua despedida. A poesia foi o caminho para compreender a vida, para construir a identidade em um mundo incapaz de compreender quem Herzer era, incapaz de lhe dar o amparo que tanto buscava. Foi na poesia também que registrou a sua despedida e eternizou a sua história através de seus escritos, deixando em suas palavras as marcas da agonia de existir.

Minha vida, meu aplauso

Fiz de minha vida um enorme palco           
Sem atores, para a peça em cartaz  
Sem ninguém para aplaudir este meu pranto         
Que vai pingando e uma poça no palco se faz.      
Palco triste é meu mundo desabitado         
Solitário me apresenta como astro  
Astro que chora, ri e se curva à derrota     
E derrotado muito mais astro me faço.       
Todo mundo reparou no meu olhar triste   
Mas todo mundo estava cansado de ver isso                     
E todo mundo se esqueceu de minha estreia          
Pois todo mundo tinha um outro compromisso.     
Mas um dia meu palco, escuro, continuou  
E muita gente curiosa veio me ver  
Viram no palco um corpo já estendido       
Eram meus fãs que vieram para me ver morrer.    
Esta noite foi a noite em que virei astro     
A multidão estava lá, atenta como eu queria.        
Suspirei eterna e vitoriosamente      
Pois ali o personagem nascia                      
E eu, ator do mundo, como minha solidão…          
Morria!
(Anderson Herzer, A queda para o Alto, 1982)

Referências:

HERZER, Anderson. A queda para o alto. São Paulo: Editora Vozes, 1982.

http://www.periodicos.letras.ufmg.br/index.php/o_eixo_ea_roda/article/viewFile/4232/4078

https://www.editorarealize.com.br/editora/anais/conages/2015/TRABALHO_EV046_MD1_SA8_ID288_24042015121358.pdf

CHAVES, Leocádia Aparecida. “A queda para o alto: a experiência de Anderson Herzer na construção de seu corpo, de seu gênero, de sua sexualidade. Letras Escreve. Macapá, v. 7, n. 4, 2º semestre, 2017. https://periodicos.unifap.br/index.php/letras/article/view/3087/pdf

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