“O Bem Amado”: retrato do político pilantra brasileiro

Em 1962, Dias Gomes escreveu a primeira versão de “O Bem Amado”, peça que se tornaria uma de suas obras mais conhecidas e ganharia versões para a TV e o cinema. Encenada pela primeira vez em 1969, em Pernambuco, a peça tem como subtítulo “Farsa sociopolítico-patológica em nove quadros” e sua versão definitiva foi publicada em livro em 1975.

A história retrata as peripécias de Odorico Paraguaçu à frente da prefeitura de Sucupira. Eleito com a promessa de construir um cemitério e dono de um discurso empolado, marcado por neologismos e estratégias para enrolar seus eleitores, Odorico é o típico político que usa a máquina pública ao seu favor e manipula os recursos da prefeitura em benefício próprio. Para cumprir a promessa de construção do cemitério, ele desvia dinheiro da iluminação pública, do abastecimento de água e da educação, no entanto, esbarra em um problema: queria inaugurar o cemitério com o primeiro enterro da cidade e ninguém morre para que ele possa realizar o seu desejo.

A partir daí, ele embarca em uma série de ações para conseguir seu morto tão esperado, ao mesmo tempo em que vive em pé de guerra com Neco Pedreira, jornalista da cidade, que aponta as irregularidades do seu mandato.

Dotado de um discurso verborrágico, Odorico Paraguaçu manipula os moradores da cidade e mergulha em um jogo de estratégias para conseguir seu defunto tão esperado. Ele chega a trazer um doente terminal de outra cidade, mas vê seu plano frustrado diante da melhora do moribundo. Como última cartada, nomeia o ex-matador Zeca Diabo para o cargo de delegado e arma um plano para que ele execute seu desafeto Neco Pedreira.

A peça é marcada por um jogo de trapaças e pela explicitação das corrupções que marcam o mandato do prefeito de Sucupira. A partir da ficção, Dias Gomes revela um Brasil bastante real, no qual o discurso pomposo é usado para manipular eleitores e a política se torna um espaço de ascensão pessoal em detrimento dos interesses do cidadão.  

Embora caricato, Odorico Paraguaçu representa uma parcela dos políticos brasileiros, que usam a máquina pública para tirar vantagens, entretanto, mesmo assim, conseguem angariar a confiança de uma grande parcela de eleitores.

Para Dias Gomes, não seria possível refletir sobre o Brasil sem passar pelo absurdo, “o absurdo faz parte do cotidiano”. Desse modo, por mais surreais que pareçam algumas situações retratadas em “O Bem Amado”, elas estão calcadas na realidade do país, uma realidade que tem a sua parcela de jornalistas sensacionalistas como Neco Pedreira e políticos como Odorico Paraguaçu.

Deixando de lado os “entretantos e partindo para os finalmentes”, podemos dizer que a política brasileira é marcada por muitos Odoricos, que produzem discursos absurdos, se tornam figuras carismáticas, porém aproveitadoras, encarnam a imagem de homens de bem, que vivem a vida política em benefício do povo, mas, se aproveitam da posição que ocupam para angariar benefícios próprios, misturam interesses públicos com interesses privados e seguem até hoje ocupando diferentes espaços na política brasileira.

Referências:

Dias Gomes. “O Bem Amado”. Rio de Janeiro: Bertrand do Brasil, 2014.

FERNANDES, Carlos Antônio. “As estratégias políticas de ‘O Bem Amado’, farsa sociopolítica em 9 quadros: uma construção discursiva do personagem Odorico Paraguaçu”. Dissertação de Mestrado. UFMG, 2015.  https://repositorio.ufmg.br/bitstream/1843/MGSS-A7PR8Q/1/disserta__o_vers_o_definitiva_da_definitiva__1__revista_el_.pdf

ARAUJO VILELA, Anne. “As performances de Odorico Paraguaçu em ‘O Bem Amado’ (1973)”. Dissertação de Mestrado. UFG, 2020.

https://repositorio.bc.ufg.br/tede/bitstream/tede/10415/5/Disserta%C3%A7%C3%A3o%20-%20Anne%20Araujo%20Vilela%20-%202020.pdf

Imagens retiradas da novela “O Bem Amado”, exibida em 1973 na TV Globo.  https://memoriaglobo.globo.com/entretenimento/series/o-bem-amado/

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