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O Linchamento do Guarujá

A triste e revoltante história do linchamento de Fabiane de Jesus, mulher inocente, que foi espancada e morta pela população, após ser acusada falsamente de ser assassina de criança em rituais de feitiçaria

Fabiane de Jesus era mãe, jovem, casada e dona de uma família feliz. Moradora do bairro Morrinhos IV, uma região pobre na periferia de Guarujá, litoral sul de São Paulo. Fabiane criava suas duas filhas educando-as sob os preceitos cristãos. Pelo menos duas vezes na semana, a jovem mãe ia ao mercado comprar frutas e verduras. No dia três de maio de 2014, bem cedo, Fabiane comprou bananas e maçãs e deu uma das frutas para uma criança que brincava em frente de casa. A mãe do menino observou a cena, recolheu a banana da mão do garoto e contou aos vizinhos que uma estranha estava dando comida para crianças do bairro. Na época, havia um boato, publicado por uma página do Facebook de grande circulação na cidade, de que uma mulher assassina de crianças estaria atacando no Guarujá.

Na verdade, a notícia e o retrato falado publicados pela página não tinham nada a ver com a cidade. Era um desenho feito pela polícia civil do Rio de Janeiro de dois anos antes, porém a fake news rodou a cidade litorânea e acendeu os sentidos da população. Assim, parte dos moradores de Morrinhos passou a achar que Fabiane era a mulher assassina que matava crianças para fazer magia. Segundo boatos daquela manhã, a banana dada à criança estaria com sedativos.

A população, já enfurecida e convencida de que Fabiane realmente era uma assassina de crianças, não perdoou. Eles buscaram a mulher em casa, publicaram seu nome e foto na internet e, em poucos minutos, ela começou a ser brutalmente espancada por dezenas de pessoas. Foram três horas de pauladas, socos, cuspes, chutes nas costas, na cabeça e até facadas. Nas mãos de Fabiane estava uma bíblia, ela foi destruída sem ao menos ser identificada, os linchadores acreditaram que seria um livro para a realização do ritual de assassinato. 100 pessoas participaram do crime e mais de 1000 observaram e se omitiram perante o absurdo que ocorria.

O Brasil é o país que mais lincha pessoas no mundo. Segundo o sociólogo José de Souza Martins, nos últimos 60 anos, 1 milhão de brasileiros participaram da prática.

Marido de Fabiana segura foto com a família (Folha de SP – reprodução)

No final daquele dia 3 de maio, o marido de Fabiane teve dificuldade até de reconhecer seu rosto e corpo no necrotério do IML.
O bárbaro crime levantou o debate sobre a justiça com as próprias mãos e o uso da internet como difusora de fake news e boatos.
Das pessoas que participaram da ação, apenas cinco homens foram presos e condenados e apenas um deles pegou uma pena de 30 anos de prisão. Na leitura da sentença, o juiz declarou: “Essa é uma barbárie atípica”.

As três mulheres que inventaram a história da banana sedada e espalharam que Fabiane era assassina de crianças foram indiciadas por incitação ao crime, mas não chegaram a ficar presas e prestaram serviços comunitários.

O homem preso pelo crime nunca declarou estar arrependido do que fez. Ele jurou diante do tribunal que tinha certeza de que ela era assassina de crianças.

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