A Banalidade do Mal: o que levou o cidadão comum a aderir ao Nazismo

O conceito de banalidade do mal alterou significativamente a forma de entender como, através de indivíduos comuns a maldade ganha força nas sociedades contemporâneas

Adolf Eichmann, o homem que enviou milhões de judeus para encontrar com a morte em Campos de Concentração, assustou o mundo ao se mostrar uma pessoa terrivelmente comum

Foi através da história desse burocrata alemão que a filósofa Hannah Arendt criou o conceito de “Banalidade do Mal”, para explicar como um cidadão comum foi capaz de cometer maldades terríveis, a partir da perda da capacidade de reflexão.

Eichmann com seus livros na sede da delegacia onde foi interrogado

O período do nazismo na Alemanha é considerado como produtor de uma das maiores tragédias da história da humanidade. Conhecido como Holocausto, o evento consistia em separação, submissão ao trabalho forçado e extermínio de judeus em massa. Os locais escolhidos para realizar essas barbáries foram os Campos de Concentração. Eichmann, filho de um bibliotecário e de uma empregada doméstica, foi um dos principais responsáveis por organizar a logística e viabilizar as viagens dos vagões da morte. Em um serviço que propiciou o start para o processo de extermínio dos Judeus.

Após a queda do Reich e a ocupação das tropas aliadas em Berlim, Eichmann conseguiu fugir para a Argentina, onde mudou de nome e arrumou um emprego na Mercedes Benz. Após 15 anos vivendo na surdina da falsa identidade, foi capturado, em 1960, por uma equipe do Serviço Secreto Israelense. Levado até o Tribunal Internacional, Eichmann era tratado como um homem monstruoso, até o início do julgamento.

A ideia da monstruosidade do burocrata só foi desconstruída quando a judia Hannah Arendt, que foi obrigada a se exilar nos Estados Unidos após ascensão do nazismo, foi enviada por uma revista norte-americana, para escrever sobre o processo de julgamento do alemão.

A filósofa, após ler as quase 4 mil páginas de inquérito policial e as peças de acusação e defesa, acabou se deparando com um homem terrivelmente comum.
Eichmann era um pai de família exemplar, daqueles que olhava os cadernos dos filhos, que tratava a esposa com respeito e carinho, cultivava a crença religiosa protestante, frequentava a igreja e cumpria ordens sem questionamentos. Sua principal preocupação era executar suas funções com a maior eficiência possível. Hannah percebeu que o alemão não se considerava parte do assassinato em massa, que, em sua mente, o errado seria não ter realizado os atos de sua função. Durante o interrogatório, o ex-burocrata se sentia mal quando confrontado, e não aceitava que suas ações foram responsáveis pela morte de milhões de judeus. Ele não parecia compreender que seu respeito às ordens do governo alemão foi responsável por levar parte significativa de um povo para câmara de gás.

O burocrata aguarda julgamento enquanto caminha

Arendt foi pressionada de todos os lados para descrever Eichmann como o satanás, mas em respeito à honestidade intelectual, viu ali a oportunidade de criar um novo conceito para entender a maldade do século XX. Foi nessa ocasião que nasceu um dos pontos altos de sua obra: A Banalidade do Mal.

Foi a partir do acompanhamento desse julgamento que a filósofa teorizou que o pior mal é realizado pelo cidadão comum, o homem médio, pessoas que estão inseridas em um sistema onde a maldade é difundida por todos os lados, principalmente quando perdem a capacidade de reflexão crítica e a habilidade de dizer não e se indignar perante a falta de ética do sistema. Os monstros estão mais próximos de nós do que pensamos e todo homem pode reproduzir o mal sem entender o que está fazendo como um absurdo.

Os textos de Arendt, que receberam duras críticas pela comunidade internacional, foram publicados no livro “Eichmann em Jerusalém” e alteraram significativamente a visão da comunidade internacional sobre como os crimes contra a humanidade ocorrem. A autora chegou à conclusão de que o mal é difuso na sociedade e, quando ele se banaliza, as barbaridades mais terríveis passam a ocorrer.

O conceito de Banalidade do Mal contribuiu para que os Estados e as universidades passassem a se preocupar com o ensino reflexivo crítico, pautado nos direitos humanos e priorizassem a formação dos alunos através do ensino da maior pluralidade de ideias possível, para que os cidadãos não percam a capacidade de se indignar nas situações em que a ética humana é colocada em xeque.

Adolf Eichmann se apresenta ao tribunal

O mal, se descuidado, passa de exceção à regra e os seus malfeitores não percebem a gravidade da maldade que estão perpetrando.

Deixar de ensinar nas escolas a pluralidade de ideias é contribuir para reforçar a banalização do mal entre nós.

PS: Um pouco antes do enforcamento, Eichmman enviou uma carta à corte que o julgou pedindo Clemência, ele alegou que era apenas uma peça no sistema e que os verdadeiros responsáveis pelas mortes foram os líderes do governo alemão.

Referências:

AGUIAR, O.A. “Violência e Banalidade do Mal”. Disponível em: https://revistacult.uol.com.br/home/violencia-e-banalidade-do-mal/. Acesso em 10/03/2019.

ANDRADE, Marcelo. “A banalidade do mal e as possibilidades da educação moral: contribuições arendtianas”. Disponível em: http://www.scielo.br/pdf/rbedu/v15n43/a08v15n43.pdf. Acesso em 11/03/2019.

ARENDT, Hannah. “Eichmann em Jerusalém. Um relato sobre a banalidade do mal”. São Paulo: Companhia das Letras, 1999.

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