A trajetória de Antônio Conselheiro, um dos personagens mais interessantes da história brasileira

Conheça os caminhos seguidos pelo líder de Canudos

Antônio Vicente Mendes Maciel, mais conhecido como Antônio Conselheiro, nasceu em Quixeramobim, no Ceará, em 13 de março de 1830. Filho de um vaqueiro que, posteriormente, tornara-se comerciante, teve uma vida relativamente estável, tendo acesso à educação formal e aprendendo noções de português, latim, francês e matemática. Perdeu sua mãe aos seis anos de idade e passou a sofrer nas mãos da madrasta, a qual não o tratava bem.   
Perdeu o pai aos 25 anos e viu-se obrigado a assumir os negócios da família, que já não iam nada bem nesse momento, e a responsabilidade pelas três irmãs.

Casou-se com sua prima Brasilina Laurentina de Lima e, após encerrar os negócios do pai e casar as irmãs, mudou-se para diferentes lugares, trabalhando como professor, balconista e rábula.        

Sua vida começa a se modificar completamente depois de sofrer uma grande desilusão ao ver sua esposa fugindo com um soldado. Assim, Conselheiro inicia uma peregrinação por vários lugares, exercendo diferentes profissões. Um ano depois, passa a viver em Tamboril com a artesã Joana Imaginária e, conforme alguns estudiosos, será o misticismo dessa mulher que dará início à transformação de Antônio Conselheiro. Algum tempo depois, ele abandona a nova companheira e retoma sua peregrinação. Segundo Euclides da Cunha, durante vários anos não se ouve falar do Conselheiro até que, em 1874, esse homem vestido com uma túnica azul, barba e cabelos longos, passa a percorrer o sertão da Bahia, andando também por outros estados. 

Vivendo de modo extremamente humilde, Antônio Conselheiro fazia pregações, reconstruía igrejas e cemitérios e organizava mutirões para construir barragens. Suas pregações eram de base fortemente católica, sendo, inclusive, querido por alguns padres. Essa situação começa a mudar quando o alto clero proíbe celebrações de leigos e os seus discursos contra as injustiças sociais e a república passam a incomodar os grandes proprietários de terra e o governo.             

Em 1876, Conselheiro foi preso, acusado de ter matado a esposa e a própria mãe. De volta à sua terra natal, constataram que ele não havia praticado crime algum, mas recomendaram que ele fosse internado em um hospício. Diante da ausência de vagas, Antônio Conselheiro foi liberado e, perseguido pela Igreja e pelo Estado, fundou o arraial de Belo Monte em 1893.    

Conhecido como Canudos, o arraial era um lugar onde não havia cobrança de impostos, não havia exploração, as pessoas podiam viver livremente, cultivando seu roçado e tendo como norte a fé em Deus e a certeza de que ali estariam livres da hecatombe que pregavam as profecias.         
Antônio Conselheiro fazia suas pregações em uma igreja construída pelos membros da comunidade e cada dia mais recebia camponeses, vaqueiros, pessoas que haviam sido escravizadas, enfim, diferentes membros de classes sociais extremamente baixas e que fugiam da miséria e do abandono que marcavam suas vidas.

Ali em Belo Monte, todas essas pessoas seriam tratadas como iguais e encontravam na fé a certeza de dias melhores. Os grandes proprietários de terra, comerciantes e a Igreja Católica, no entanto, sentiam-se incomodados com o desenvolvimento de um povoado que não se submetia àqueles que detinham o poder e, assim, convenceram o Estado a destruir Canudos.  

Com o discurso de que ali havia um movimento de restauração monarquista e de que Conselheiro e seus seguidores eram facínoras perigosos, tem início a Campanha de Canudos e, conforme Euclides da Cunha, um dos maiores genocídios já cometidos no Brasil.

Após quatro expedições marcadas por extrema violência, o povoado de Canudos é completamente arrasado. Dias antes, em 22 de setembro de 1897, já bastante debilitado, Antônio Conselheiro morre. Em 6 de outubro, dia seguinte após a destruição completa de Canudos, o corpo de Conselheiro é encontrado pelos militares, desenterrado, decapitado e sua cabeça enviada para a Universidade da Bahia para estudos científicos. A forma de justificar o massacre ocorrido em Canudos era apresentar Antônio Conselheiro como louco e seus seguidores como pessoas violentas que deveriam ser combatidas. Imagem que foi descontruída já em 1902, quando Euclides da Cunha afirma que o que aconteceu em Canudos foi um crime que deve ser denunciado e em todos os muitos outros textos produzidos sobre o assunto, os quais mostram que o que ocorreu ali foi o extermínio de uma população pobre e oprimida, a qual ousou se colocar contra aqueles que detêm o poder.

Referências:

Bovo, Ana Paula Martins Corrêa. “Antônio Conselheiro: os vários”. Dissertação de Mestrado. Campinas, SP: UNICAMP, 2007.     
CUNHA, Euclides da. “Os sertões”. Rio de janeiro: Record, 1984.
ARAÚJO Sá, Antônio Fernando. “Canudos Plural: Memórias em confronto nas comemorações centenárias de Canudos (1993 – 1997)”. http://www.infonet.com.br/canudos/canudos_plural.htm
LEVINE, Robert. “O sertão prometido”. São Paulo: Edusp, 1995.
MONTENEGRO, Abelardo. “Antônio Conselheiro”. Fortaleza, s.ed., 1954.
ALMEIDA, Cícero F. de. “Canudos: imagens da guerra”. Os últimos dias da Guerra de Canudos pelo fotógrafo expedicionário Flávio de Barros, Rio de Janeiro, Museu da República/Lacerda, 1997.

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