“Um sonho de Liberdade” e o impacto do cárcere na vida humana

O filme, baseado na obra de Stephen King, é um estudo bastante profundo da vida na prisão.

“Andy Dufresne é condenado a duas prisões perpétuas consecutivas pelas mortes de sua esposa e de seu amante. Porém, só Andy sabe que ele não cometeu os crimes. No presídio, durante dezenove anos, ele faz amizade com Red, sofre as brutalidades da vida na cadeia, se adapta, ajuda os carcereiros”.

A premissa oficial do longa metragem destaca o tempo em que o banqueiro Andy ficará preso. E é pelos olhos de Andy que vemos um homem normal, comum, pagador de seus impostos, cometer um crime e ser enviado para uma prisão.

Logo na chegada à instituição, os novos prisioneiros passam em frente aos já encarcerados. Como um ritual de boas vindas, todos os olhos e gritos daqueles homens, abarrotados nas telas da instituição, são direcionados aos novatos. Na triagem, Andy e os novos detentos passam a ser chamados pela matrícula, marcham para as celas, vestem o uniforme, passam a entender a disciplina da prisão. Um local cheio de regras e 24 horas vigiado. As regras visam disciplinar o preso, a disciplina é o principal método de controle usado nas instituições penais contemporâneas.

Andy chega ao presídio e se vê longe de sua liberdade

O apenado convive tanto tempo em um ambiente disciplinado, que acaba internalizando e sofrendo um processo de institucionalização. Ou seja, passa a se acostumar com a cadeia.

Um dos momentos mais marcantes deste estudo, proposto pelo filme, pode ser apreciado durante a sequência em que Brooks Hatlen, um prisioneiro antigo da penitenciária, é libertado, após muito anos no cárcere.

Momento em que Brooks é liberto

O Diretor, Frank Darabont, mostra, em uma sequência de cenas, como o personagem ficou institucionalizado, em um dos momentos mais tristes e impressionantes do longa. A institucionalização é um processo muito comum em ambientes de controle, como presídios e hospitais psiquiátricos: o interno, aos poucos, absorve as regras e a socialização do local de uma tal maneira, que desaprende a viver fora do ambiente institucional. Dentro do presídio, Brooks tinha um papel social, era o cuidador da biblioteca, um homem culto, que dominava as regras e a ética das cadeias.

Quando libertado, seu primeiro contato com a rua é assustador. Seus olhos perdidos, a aflição ao pegar o ônibus, a quantidade e velocidade dos carros e do mundo dos homens livres, faz com que, aos poucos, Brooks desenvolva uma tristeza profunda, um comportamento melancólico que o levará ao suicídio dentro de um velho quarto.

Brooks pega um ônibus após sair da prisão

O longo caminho para se enquadrar novamente ao mundo fora dos muros é mostrado através de um singelo trabalho como empacotador em um pequeno mercado. A tristeza nos olhos de Brooks, as cartas que envia aos presos na penitenciária mostram que o sistema o transformou em um homem tão institucionalizado que ele não consegue mais conviver com a liberdade. Em um velho quarto, em uma pensão, o homem que viveu muitos anos encarcerado dá fim à própria vida, como se a corda fosse a chave para uma liberdade que o sistema penitenciário lhe tomou.

Recado deixado por Brooks antes de se suicidar
Quarto de Brooks fora da prisão
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